Antes de a Ilha das Caieiras se consolidar como um dos principais polos gastronômicos de Vitória, Laura Correia dos Santos, a Tia Laura, de 95 anos, já reunia moradores dentro de casa para discutir os caminhos da comunidade. Primeira presidente da associação de moradores, ainda nos anos 1960, ela participou de mobilizações por serviços de saúde e educação, ajudou na organização das desfiadeiras e fez do incentivo aos estudos uma prioridade dentro e fora da própria família.
A casa de Tia Laura, porém, nunca esteve aberta apenas aos filhos. Segundo ela, moradores que precisavam de apoio também encontravam as portas abertas. “Ajudava todo mundo. Botei muita gente aqui em casa. Dei apoio para muita gente”, lembra.
Foi nesse mesmo endereço que ocorreram reuniões ligadas à organização das desfiadeiras da Ilha das Caieiras. A filha Andréia Maria Correia da Silva, professora, guarda na memória a participação da mãe naquele movimento. "Ela trouxe também essa questão das desfiadeiras na organização da cooperativa. A primeira reunião, se eu não me engano, foi aqui em casa", conta.
A mobilização comunitária também passava pela cobrança por serviços públicos em uma região que ainda enfrentava problemas de infraestrutura. "Postinho de saúde foi nós que conseguimos, com o Estado e a prefeitura. Ali onde é a Casa Juventude", recorda Tia Laura.
Rodrigo Gomes
Se havia uma bandeira que começava dentro de casa e ultrapassava a porta, era a educação. Tia Laura teve dez filhos, e seis das filhas se tornaram professoras. Dulce Correia da Silva conta que a mãe fazia questão de que elas estudassem e estendia o mesmo incentivo às demais famílias da comunidade. "Ela incentivava também as outras famílias a colocar os filhos pra estudarem", relata Dulce.
A preocupação com as crianças também esteve presente nas mobilizações da época. Segundo a filha, a primeira creche da Ilha das Caieiras surgiu em meio às dificuldades enfrentadas pelas famílias da região.
O espaço onde atualmente funciona o CMEI Magnólia Dias Miranda Cunha funcionava, na época, como uma unidade de proteção ao pré-escolar. "As crianças daqui morriam muito antes de chegar à escola. Então, era uma unidade de proteção ao pré-escolar. As crianças se alimentavam, tinham umas quatro ou cinco refeições, todo tipo de higiene, o médico visitava, dentista também", conta Dulce.
Para a filha, esse envolvimento traduz uma característica que acompanhou Tia Laura ao longo da vida: o cuidado com as pessoas.
Rodrigo Gomes
Décadas depois das reuniões realizadas dentro de casa, a trajetória de Tia Laura ganhou também as paredes da Ilha das Caieiras. O rosto dela foi retratado no Beco do Caborê em um mural feito pelo artista capixaba Nico Duarte, em parceria com outros artistas da região.
A obra reúne referências às desfiadeiras, à pesca e à cultura local. Para Andréia, encontrar a mãe retratada ainda em vida fez a família enxergar de outra forma a dimensão de uma história acompanhada tão de perto.
A obra reúne referências às desfiadeiras, à pesca e à cultura local. Para Andréia, encontrar a mãe retratada ainda em vida fez a família enxergar de outra forma a dimensão de uma história acompanhada tão de perto.
"Quando eu me deparei com aquilo, eu não acreditei, eu chorei muito, assim, porque primeiramente o artista conseguiu captar a essência da minha mãe. O olhar, o amor que ela transmite nesse olhar, nesse sorriso, representou muito esse ser de luz que ela é e esse ser comunitário”, afirma.
O Beco do Caborê também passou a chamar a atenção de turistas. A guia Tati Queiroz destaca que retratar moradores e tradições da região ajuda a fortalecer o turismo de base comunitária. "Como se faz isso? Valorizando as nossas tradições, a nossa fauna, a nossa flora, as pessoas que aqui vivem. Trouxe mais turistas, mais admiração. Eles se sentem muito felizes. Isso trouxe coisas boas aos que querem bem a nossa comunidade”, conta.
A história construída por Tia Laura também se estende na família. São dez filhos, 21 netos, 30 bisnetos e sete tataranetos. Muitos deles se reuniram para registrar em uma foto a homenagem feita à matriarca no mural.
"Emocionante. Minha mãe, além de linda fisicamente, é referência não só pra nós, família, mas pra toda a comunidade. Uma trajetória de amor e dedicação ao próximo que atravessa décadas e continua inspirando", diz Andréia.
Depois de criar os filhos, participar das mobilizações da comunidade e ver a própria história transformada em homenagem, Tia Laura resume, aos 95 anos, o que sente ao olhar para tudo que ajudou a construir: “Sou feliz e agradeço tudo que Deus me deu. Graças a Deus.”
*Com informações do repórter Diony Silva, da TV Gazeta