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Rodrigo Horta

Artigo de Opinião

É advogado criminalista especializado em Direito Penal Econômico e Empresarial. Presidente da Comissão de Direito Penal Econômico da OAB/ES
Rodrigo Horta

Entre o veneno e a forca: Tiradentes, Platão e a política da morte exemplar

Embora separados por séculos e por contextos radicalmente distintos, os episódios da morte de Sócrates, interpretada por Platão, e da execução de Tiradentes revelam uma mesma racionalidade
Rodrigo Horta
É advogado criminalista especializado em Direito Penal Econômico e Empresarial. Presidente da Comissão de Direito Penal Econômico da OAB/ES

Publicado em 23 de Abril de 2026 às 17:00

Publicado em 

23 abr 2026 às 17:00

Há mortes que encerram vidas e há mortes que inauguram símbolos. A história registra, em tempos e contextos distintos, episódios em que o poder transforma a punição em espetáculo, e a morte em linguagem política. 


É nesse ponto que se pode traçar um paralelo instigante entre a execução de Tiradentes, no Brasil colonial, e a tradição filosófica grega associada a Sócrates e, posteriormente, interpretada por Platão: ambos os casos revelam uma mesma lógica de eliminação simbólica do “desviante”, entendida como necessária à preservação da ordem social.


No caso grego, a condenação de Sócrates – mestre de Platão – não foi apenas uma decisão jurídica. Foi, antes de tudo, um ato político. Acusado de corromper a juventude e de impiedade, Sócrates representava um incômodo permanente à estrutura democrática ateniense.


Seu método, baseado no questionamento constante, desestabilizava certezas, expunha ignorâncias e colocava em xeque a legitimidade dos que governavam. A decisão de condená-lo à morte por ingestão de cicuta não pode ser compreendida apenas como punição individual, mas como tentativa de restaurar uma ordem abalada por críticas internas profundas. 



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Séculos depois, em 1792, a execução de Tiradentes, no Rio de Janeiro, revela um mecanismo semelhante, embora revestido de maior brutalidade material. Acusado de lesa-majestade no contexto da Inconfidência Mineira, Tiradentes foi submetido a um processo longo e exemplar – a chamada Devassa – que culminou não apenas em sua morte por enforcamento, mas em uma série de medidas destinadas à eliminação total de sua memória: esquartejamento do corpo, exposição pública dos restos, destruição de sua casa e até o salgamento do terreno onde vivia. 


A conexão entre esses dois episódios pode ser aprofundada à luz de um conceito central da filosofia política antiga: o miasma, explorado por Platão. Mais do que uma simples impureza, o miasma representava uma contaminação moral e religiosa capaz de atingir toda a comunidade. 


Um crime grave, especialmente contra a ordem divina ou estatal, não afetava apenas o indivíduo, mas colocava em risco a coletividade. Por isso, a punição deveria assumir caráter purificador.


Essa lógica aparece com clareza na execução de Tiradentes. A sentença não buscava apenas punir o acusado, mas “limpar” simbolicamente o território daquilo que era considerado uma ameaça à ordem monárquica. 

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Tiradentes foi morto após organizar movimento contra pagamentos de impostos abusivos
Tiradentes foi morto após organizar movimento contra pagamentos de impostos abusivos Enciclopédia Ilustrada do Brasil/Reprodução

O mesmo raciocínio pode ser identificado, em escala distinta, na morte de Sócrates. Embora sua execução tenha sido menos violenta do ponto de vista físico, seu julgamento público e sua condenação serviram como demonstração pedagógica: a cidade precisava reafirmar seus limites diante daquilo que considerava uma ameaça à coesão social. 


Outro ponto de convergência relevante está na postura dos condenados. Tanto Sócrates quanto Tiradentes recusaram estratégias de autopreservação que poderiam alterar seu destino. Sócrates rejeitou o exílio e aceitou a sentença em nome da coerência com as leis da cidade. 


Tiradentes, por sua vez, assumiu a responsabilidade pelos atos da conspiração, protegendo outros envolvidos e aceitando a morte como consequência de sua convicção. 


Essa atitude contribuiu decisivamente para a construção posterior de ambos como mártires. No caso de Sócrates, sua morte consolidou sua imagem como símbolo da integridade filosófica e da busca pela verdade. No caso de Tiradentes, a República brasileira, décadas mais tarde, transformou sua execução em mito fundador, convertendo um condenado por traição em herói nacional.


Em síntese, embora separados por séculos e por contextos radicalmente distintos, os episódios da morte de Sócrates, interpretada por Platão, e da execução de Tiradentes revelam uma mesma racionalidade: a de que o poder, quando ameaçado, recorre não apenas à punição, mas à construção simbólica da morte como mecanismo de controle social.


A história, contudo, apresenta uma ironia recorrente: aquilo que o poder pretende apagar, muitas vezes se perpetua. Tanto Sócrates quanto Tiradentes sobreviveram às suas condenações, não como corpos, mas como ideias. E, nesse sentido, suas mortes talvez tenham produzido exatamente o oposto do que pretendiam seus julgadores

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