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Berthasaura leopoldinae

Sem dentes, novo dinossauro brasileiro surpreende cientistas

Berthasaura leopoldinae, de apenas 1 m de comprimento, acaba de ser apresentada ao público e à comunidade científica; nome feminino é raridade na área

Publicado em 18 de Novembro de 2021 às 15:39

Agência FolhaPress

Publicado em 

18 nov 2021 às 15:39
Ilustração do dinossauro brasileiro Berthasaura leopoldinae
Ilustração do dinossauro brasileiro Berthasaura leopoldinae Crédito: Maurilio Oliveira/Divulgação
O animal pertencia a um grupo cujos representantes mais típicos costumam ser comparados ao temível Tyrannosaurus rex, mas sua trajetória evolutiva o levou a ficar sem um único dente na boca -e, ao que tudo indica, com um bico.
Essa é a história paradoxal da Berthasaura leopoldinae, dinossauro brasileiro de apenas 1 m de comprimento que acaba de ser apresentado ao público e à comunidade científica.
Com idade estimada em cerca de 70 milhões de anos, o esqueleto quase completo do bicho foi encontrado nas rochas da chamada formação Goio Erê, no município de Cruzeiro do Oeste (PR). A pesquisa descrevendo formalmente a nova espécie está no periódico especializado Scientific Reports.
Assinam o trabalho pesquisadores do Museu Nacional da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e da Universidade do Contestado, em Santa Catarina, os quais já vinham estudando a fauna fóssil da região (o lugar também revelou novas espécies de pterossauros, ou répteis voadores).
Marina Bento Soares, paleontóloga do Museu Nacional e coautora do estudo, explica que o nome científico da criatura é uma homenagem tripla: à bióloga e feminista pioneira Bertha Lutz, que trabalhou no museu e morreu em 1976; à imperatriz Leopoldina, mulher de dom Pedro 1º e detentora de sólida formação científica; e à escola de samba Imperatriz Leopoldinense, cujo samba-enredo no Carnaval de 2018 versava sobre o Museu Nacional.
Por causa das homenageadas, os pesquisadores fizeram questão de dar uma forma feminina ao nome da espécie em latim -segundo Soares, trata-se de algo bastante raro nos nomes científicos de dinossauros publicados até hoje.
De um lado, a equipe tirou a sorte grande ao achar um esqueleto tão completo, já que a maioria das espécies brasileiras de terópodes (o grande grupo dos dinossauros carnívoros) é conhecida apenas por meio de ossos esparsos.
Por outro lado, os traços peculiares da Berthasaura leopoldinae deram certa dor de cabeça na hora de tentar decifrar o parentesco do animal com outros dinos, conta Geovane Alves de Souza, também pesquisador do Museu Nacional e primeiro autor do estudo.
"O resultado inicial das análises indicava que a espécie poderia ser um ornitomimídeo", diz ele, referindo-se aos dinossauros parecidos com avestruzes que volta e meia aparecem correndo nos filmes da franquia "Jurassic Park". O problema é que os bichos só ocorriam nos continentes do hemisfério Norte, em especial nos territórios asiático e norte-americano.
Uma rodada mais apurada de análises tirou Souza desse aperto e esclareceu o mistério. Para os pesquisadores, o bicho na verdade seria um noassaurídeo, membro de um subgrupo de carnívoros típicos do hemisfério Sul.
A maioria desses bichos possui dentes afiados de predador, mas uma espécie que vivia na atual China perdia os dentes quando atingia a idade adulta, e é justamente com as formas adultas dessa espécie que a Berthasaura leopoldinae se parecia.
Mas o espécime achado no interior do Paraná ainda era um filhote, talvez na "adolescência", a julgar pelo fato de que vários de seus ossos ainda não estavam totalmente fusionados, como ocorre nos indivíduos adultos. Isso sugere que a espécie era edêntula (termo cientificamente preciso para "desdentada") ao longo de todo o seu tempo de vida.
Será que isso significa que ela tinha se tornado vegetariana? Não necessariamente, já que o ramo dos dinossauros que deu origem às aves também perdeu progressivamente os dentes e ganhou um bico, mas muitas aves continuam comendo insetos ou vertebrados.
"Eu tendo a achar que ele era herbívoro, o Giovane acha que ele poderia comer carne. É uma discussão ainda em aberto", diz Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional e também autor da pesquisa.

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