Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Coluna Abdo Filho

"Espírito Santo vai ter que se reinventar", avisa tributarista

Helcio Honda, advogado e diretor do Departamento Jurídico da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), vem a Vitória participar de evento sobre a reforma tributária organizado pela Rede Gazeta

Publicado em 28 de Abril de 2026 às 17:54

Públicado em 

28 abr 2026 às 17:54
Abdo Filho

Colunista

Abdo Filho

afilho@redegazeta.com.br

O tributarista Helcio Honda é diretor jurídico da Fiesp Divulgação/Hondatar

O tributarista Helcio Honda, advogado e diretor do Departamento Jurídico da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), apesar de algumas críticas contundentes, principalmente quando o assunto é a simplificação, enxerga avanços importantes da reforma tributária, cuja transição já foi iniciada. "Os estados vão ter que também se movimentar para dar mais base estrutural para a implantação de empresas nos seus estados. Falo de polos de desenvolvimento, polos de tecnologia, infraestrutura, educação... Fatores que sempre deveriam ter estado na lista de prioridades, afina, isso é o papel do Estado. Não é dar incentivo fiscal. Esse foi um grande mérito da reforma tributária, vai acabar com a cultura do deslocamento espacial apenas pelo incentivo tributário".

Ele - que estará, nesta quarta-feira (28), em Vitória, na Rede Gazeta, para o Diálogos.ag sobre a reforma tributária - manda um alerta para o empresariado. "O novo sistema vai interferir muito nos sistemas de custos e preços. Vou dar um exemplo, mas que impacta muita gente: a degradação dos incentivos fiscais. Isso impacta no resultado. Tem a questão da creditação. A partir disso você passa a ter que olhar para o seu fornecedor, para eventuais questões logísticas e por aí vai". E também para o Espírito Santo. "Vai ter que se reinventar. Vai ter que olhar, por exemplo, para os portos, que é uma vocação capixaba".

Confira a entrevista completa:

A gente pode ficar otimista com essa reforma tributária que está saindo do papel agora?

É uma reforma ampla, sofisticada e ela tem alguns alicerces muito importantes. Visa simplificar. Hoje você tem 27 legislações estaduais, de ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços), que é a legislação mais importante, é a  maior fonte de arrecadação dos estados. A reforma une ICMS, ISS (Imposto Sobre Serviços) e o PIS/Cofins, ou seja, todos os tributos de consumo em uma legislação apenas. É uma grande virtude. A segundo a grande virtude, é ter o princípio da não cumulatividade plena. O que é a não cumulatividade plena? É o direito de crédito. Aliás, esse é um argumento que já deveríamos ter no ICMS. Se tivéssemos tido isso no ICMS, não precisaríamos ter, talvez, uma reforma tão profunda como essa. Isso é muito positivo para o setor industrial, que tem uma cadeia longa. Outro ponto é a transparência. Hoje, você não sabe qual é a carga de impostos em cima do produto que está comprando. Isso vai acabar. Então, a reforma tributária é positiva nesses pontos.

E o que poderia ter melhorado?

Temos complicadores também. Hoje, são cinco tributos de consumo: ICMS, IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), PIS/Cofins e o ISS. Eles serão substituídos por IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), pelo CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), o IPI ficou mantido por causa da Zona Franca de Manaus, o novo Imposto Seletivo e mais duas contribuições para estados e municípios. Veja que saímos de cinco e fomos para seis tipos diferentes de tributos. Então, essa primeira crítica. Poderia ter simplificado mais. CBS e IBS são a mesma coisa, têm a mesma base, na Europa é uma coisa só depois é feita a repartição entre os entes, mas aqui não. E qual é o motivo? Os estados não confiam na União Federal e a União Federal não confia nos estados. É um problema de confiança. Assim, teremos o IBS para estados e municípios e a CBS federal. Complicações que eram desnecessárias. Outra crítica vai em cima do IPI, que é um imposto velho, arcaico... que não tem mais sentido na atualidade. Era pra ser extinto, mas não será, ficará aí até pelo menos 2073, por causa da Zona Franca de Manaus. É um absurdo manter algo como o IPI para financiar a Zona Franca de Manaus. Um outro meio para sustentar aquilo deveria ter sido pensado. Imagina que o empresário de São Paulo, Rio, Espírito Santo e todos os demais estados terão de pagar IPI até 2073, isso se não for renovado lá na frente, apenas por causa da Zona Franca. É muito ruim. Seguiremos tendo escolhas empresariais em cima de benefícios fiscais e não em cima meramente da competitividade. Os benefícios fiscais acabam em 2033, o Espírito Santo vai sofrer com isso, mas a Zona Franca segue lá com os seus incentivos. Além do IPI, criaram um novo crédito presumido de IBS e CBS nas saídas da Zona Franca. Isso tira competitividade no geral e atenta contra o pacto federativo.

Entramos naquela história das várias exceções dentro da reforma, né? Que complicam inclusive a definição da alíquota média do imposto sobre consumo que será instituída no país.

Exatamente. Estava agora em um congresso na Espanha, lá a alíquota média do IVA (Imposto sobre Valor Agregado, que aqui foi desdobrado em CBS e IBS) é de 21% e você tem mais duas exceções. Aqui, nós vamos ter uma infinidade de alíquotas porque são vários os regimes. Um regime com 100% de desconto, outro com 60% de desconto, outro com 30% de desconto, cesta básica ampliada... Tudo isso foge do princípio da normatividade. Diante disso, por incrível que pareça, nós já entramos na reforma tributária e vamos iniciar 2027 sem uma alíquota básica definida. Não temos. A alíquota estimada está entre 28% a 29%, que será o maior patamar do mundo. A carga tributária está mantida. Essa reforma deveria ter sido precedida por uma reforma do Estado, só assim teríamos redução de carga. É altíssima a nossa carga tributária comparado ao serviço que nós temos hoje. Então, hoje, nós temos que ter uma reforma do Estado e depois uma adequação da carga. Digo isso porque estou na Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) desde 2004 e precisamos ter uma diminuição da carga para enfrentar a concorrência. Além disso, quanto maior a carga que você impõe, quanto mais complexo o cumprimento da obrigação, mais caminho você dá para a sonegação.

A Fiesp sempre foi uma grande defensora da reforma tributária, inclusive desta que foi aprovada. O argumento é que o sistema atual é desequilibrado, com a indústria pagando mais, na proporção, que os demais setores. Vai mesmo melhorar para a indústria?

Vai. Lembra que eu te falei do princípio da não cumulatividade plena? A indústria tem cadeias longas, então, ela tem crédito. Se eu não posso me creditar em tudo, eu vou perdendo em cada etapa da cadeia. Com a cumulatividade plena eu vou me creditando desde o início da cadeia. No final, a carga da indústria vai ficar menor. De outra ponta, alguns setores vão perder, por exemplo, serviços. Hoje eles têm uma tributação apenas de ISS e PIS Cofins. Vão passar a ter IBS, CBS e têm pouco crédito.

Os defensores da reforma, a indústria entre eles, afirmam que ela vai dar uma alavancada na economia. O senhor acredita nisso?

Nós não tivemos, nos últimos anos, políticas industriais consistentes que pudessem levar a inovações tecnológicas. Veja como a Coreia do Sul, mesmo depois de uma guerra que dividiu o seu território, conseguiu disparar na nossa frente dos anos 1960 para cá. Acabamos de falar da Zona Franca de Manaus. Me diga qual o benefício que nós tivemos em relação à Zona Franca de Manaus até hoje. Esse tipo de política focada em isenção fiscal, como acontecia até agora no ICMS, não é competitiva. O movimento não se dá pelo o que melhor do ponto de vista da eficiência e produtividade, mas pelo o que é melhor do ponto de vista dos benefícios. Partimos de um fundamento que é errado.

Começamos, agora em 2026, a transição. A que o contribuinte deve estar atento?  

Chamo a transição de 'inferno astral brasileiro'. Serão sete anos nisso. Se um sistema já era ruim, imagina dois? Nesta segunda-feira, foi aprovada a regulamentação do comitê gestor. São mais de 600 artigos... É complicado. Fóruns como esse que a Rede Gazeta está fazendo são fundamentais, porque o empresário tem que ficar muito atento.

Atento a exatamente o quê?

O novo sistema vai interferir muito nos sistemas de custos e preços. Vou dar um exemplo, mas que impacta muita gente: a degradação dos incentivos fiscais. Isso impacta no resultado. Tem a questão da creditação. A partir disso você passa a ter que olhar para o seu fornecedor, para eventuais questões logísticas e por aí vai. Os estados vão ter que também se movimentar para dar mais base estrutural para a implantação de empresas nos seus estados. Falo de polos de desenvolvimento, polos de tecnologia, infraestrutura, educação... Fatores que sempre deveriam ter estado na lista de prioridades, afina, isso é o papel do Estado. Não é dar incentivo fiscal. Esse foi um grande mérito da reforma tributária, vai acabar com a cultura do deslocamento espacial apenas pelo incentivo tributário. Recomendo que as empresas tenham um comitê interno, com contabilidade, auditoria, jurídico, compras, logística e etc só para analisar os impactos da reforma.

Espírito Santo é um Estado que tem muito benefício. Desde a erradicação dos cafezais, nos anos 60, é uma economia que cresceu muito a partir dos incentivos. O que fazer?

Vai ter que ser reinventar. Vai ter que olhar, por exemplo, para os portos, que é uma vocação capixaba. Tem que trazer o escoamento de produtos. Tem que fazer obras e atrair investimentos de infraestrutura para atrair essas cargas a um custo competitivo. Então, o Estado tem que parar pra repensar e os municípios também. Muitos vão perder arrecadação por conta dessa questão da partilha da IBS. Então, isso é um exercício que não é só para a empresa fazer, mas também os governos. ICMS e ISS, que são tributos próprios, acabam em 2033. 

Veja Também 

Cafeicultura une gerações e gera renda para famílias brasileiras

Colheita do café começa com preços em queda

Imagem de destaque

Cinquenta dias após invasão do MST, Samarco aguarda decisão do TJES

Imagem de destaque

Fabricante de cosméticos do Espírito Santo constrói fábrica no Sul da Bahia

Imagem de destaque

Grupo Águia Branca bate recorde de venda de carros em março

Imagem de destaque

As alavancas do parque logístico e portuário do Sul do Espírito Santo

Abdo Filho

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2005, como estagiario de Entretenimento e Cursos & Concursos. Entre 2007 e 2015, foi reporter da CBN Vitoria e da editoria de Economia do jornal A Gazeta. Depois, assumiu o cargo de macroeditor de Politica, Economia e Brasil & Mundo, ja no processo de integracao de todas as redacoes da empresa. Em 2017, tornou-se Editor de Producao e, em 2019, Editor-executivo.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Data: 09/12/2019 - ES - Vitória - Sede da Justiça Federal - Editoria: Politica - Foto: Ricardo Medeiros - GZ
Justiça bloqueia contas para cobrar R$ 4,7 milhões de ex-procurador da Fazenda nacional no ES
Imagem de destaque
Primeiros socorros em casa: como agir nas situações mais comuns do dia a dia
Imagens de drone da Praça do Papa na Enseada do Suá
Moradores relatam queda de energia em bairros da Grande Vitória

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados