No artigo passado, alertei que o
Bolsa Família, embora tenha cumprido papel decisivo no combate à miséria, vem produzindo uma sombra inesperada: a dependência excessiva. Agora, os números recentes revelam que não estamos diante de um problema pontual, mas de um fenômeno nacional e regional que ameaça travar a evolução econômica do Brasil e do Espírito Santo.
No Espírito Santo, a realidade não é diferente. Em 27 municípios capixabas, um pouco mais de um terço do total, há mais pessoas recebendo Bolsa Família do que trabalhadores formais. Em Ibitirama, por exemplo, são 1.818 beneficiários contra apenas 458 empregados com carteira assinada. Em Alto Rio Novo, 1.158 contra 361. Em Água Doce do Norte, 1.697 contra 665. Esses números não são estatísticas frias: eles retratam a fragilidade econômica de regiões inteiras, aprisionadas em um modelo de sobrevivência que as impede de avançar.
O contrassenso é gritante. Vivemos um dos períodos de menor taxa de desemprego da história recente, mas ainda assim assistimos à expansão da dependência. Em vez de celebrar o emprego, o empreendedorismo e a inovação, muitos municípios estão consolidando uma cultura em que a renda transferida substitui a renda gerada. O Bolsa Família, que deveria ser uma ponte para a autonomia, tem se tornado em muitos casos um porto definitivo de estagnação.
E o que isso significa na prática? Que cidades e estados inteiros deixam de criar valor. Deixam de incentivar seus cidadãos a empreender, trabalhar, inovar. Abrem mão de um futuro mais dinâmico para se contentar com a mesmice de uma economia subsidiada. Essa é a verdadeira involução: quando, em vez de evoluir para novos patamares de produtividade e competitividade, a sociedade retrocede para a dependência crônica.
Não se trata de negar a importância do Bolsa Família. Trata-se de denunciar o risco de transformar uma política de proteção social em um mecanismo de aprisionamento social e econômico. Se continuarmos aceitando esse modelo como normal, estaremos assinando embaixo de uma trajetória de estagnação.
O Brasil precisa, urgentemente, de políticas que incentivem a transição do benefício para o emprego e o empreendedorismo. O Bolsa Família tem que ser o primeiro degrau da escada, não o teto da vida de milhões de famílias. Caso contrário, continuaremos aplaudindo índices de desemprego baixos enquanto assistimos à verdadeira tragédia silenciosa: a perda da capacidade de gerar riqueza.
Até quando vamos aceitar a involução como destino?