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Economia

Quem vai colher o café mais valorizado da história?

O café amadurece nos pés, pronto para ser colhido. E os produtores seguem à espera de quem queira trabalhar. Até quando vamos colher essa dependência em vez de colher progresso?

Publicado em 08 de Abril de 2025 às 04:30

Públicado em 

08 abr 2025 às 04:30
Alberto Nemer Neto

Colunista

Alberto Nemer Neto

alberto@anemer.com

Enquanto o café atinge preços históricos e a safra capixaba promete recorde, produtores enfrentam um problema inesperado: falta quem queira trabalhar.
O Brasil vive um paradoxo inquietante. Ao mesmo tempo em que comemora o menor índice de desemprego da história recente — 7,4% em janeiro de 2025, segundo o IBGE —, convive com uma realidade que não fecha na ponta do lápis: mais de 40 milhões de brasileiros estão na informalidade, sem acesso a direitos trabalhistas básicos e, muitas vezes, preferindo os benefícios sociais ao vínculo formal de trabalho.
O que deveria ser ponto de partida — a proteção social — tornou-se, para muitos, ponto de chegada. A concessão cada vez mais ampla e desregulada de auxílios, sem contrapartidas claras ou incentivo à qualificação profissional, tem gerado uma dependência perigosa. Assistimos a uma transição silenciosa de uma cultura do trabalho para uma cultura do recebimento.
E os efeitos já são visíveis em setores essenciais da nossa economia. Um exemplo emblemático está no coração agrícola do Espírito Santo, onde a colheita do café — que nunca esteve tão valorizada no mercado internacional — começa a preocupar produtores não pelo clima, nem pela qualidade da safra, mas pela ausência de mão de obra disposta a trabalhar no campo.
Segundo dados, o café conilon ultrapassou em 2025 a marca de R$ 1.750,00 por saca, atingindo o maior valor nominal já registrado. E o Espírito Santo, maior produtor nacional do grão, está prestes a colher uma das melhores safras dos últimos anos, tanto em volume quanto em qualidade. Temos o produto, o mercado, a demanda e até a remuneração. Só falta quem queira fazer.
Produtores rurais estão oferecendo salários justos, transporte, alimentação, moradia e benefícios adicionais, mas encontram resistência. A matemática da ausência é cruelmente simples: se posso receber sem trabalhar, por que trabalhar?
Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, mais de 21 milhões de brasileiros recebem o Bolsa Família em 2025. Parte expressiva desse contingente, especialmente nas zonas rurais, opta por não buscar oportunidades de trabalho, pois os rendimentos oriundos de programas como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) podem superar ou igualar o que ganhariam em atividades sazonais como a colheita.
É preciso coragem para dizer: os trabalhadores sumiram, mas os benefícios continuam chegando.
Colheita do café, agricultura, agronegócio
Colheita do café Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Essa lógica é perversa. Mina a produtividade, enfraquece o espírito empreendedor e sabota o desenvolvimento econômico. A ausência de políticas públicas que promovam a transição entre o assistencialismo e a inclusão produtiva está gerando um vácuo que prejudica os empresários, desestimula os trabalhadores e compromete o futuro do país.
Não se trata de demonizar os programas sociais — que são fundamentais para proteger os mais vulneráveis —, mas de ressaltar a urgência de uma virada de chave. O assistencialismo deve ser um apoio temporário, não um projeto de vida. O Brasil precisa com urgência de políticas que incentivem a qualificação, a reinserção no mercado de trabalho e a valorização do trabalho digno.
Enquanto isso, o café amadurece nos pés, pronto para ser colhido. E os produtores seguem à espera de quem queira trabalhar. Até quando vamos colher essa dependência em vez de colher progresso?

Alberto Nemer Neto

Advogado trabalhista, coordenador do curso de especializacao em Direito do Trabalho da FDV e torcedor fervoroso do Botafogo. Neste espaco, oferece uma visao critica e abrangente para desmistificar os conceitos trabalhistas e promover um entendimento mais profundo das dinamicas legais que regem as relacoes de trabalho

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