THRILLER - PARTE 2
(A parte 1 pode ser lida aqui)
Tatagiba e eu éramos cinéfilos apaixonados! Eu tinha a glória de ter escutado Ann Blyth, em "Rose Marie", no Santa Cecília. Porém nada se comparava àquela borbulhante confusão do Festival de Cinema Amador Capixaba em que o conheci, no Jandaia, ou à sensação de nos sentarmos nas duras cadeiras do Vitorinha, para ver "A chinesa". Naqueles tempos, achávamos que Toninho Neves era nosso Jean-Luc Godard e deveria ganhar um Oscar ou um prêmio internacional (que chamaríamos de Dziga Vertov). E um dia, faríamos um filme capixaba de vanguarda, como Paulo Torre ou Ramon Alvarado.
Nesse encontro imaginário, eu falaria a Tatá daqueles jovens audaciosos que acabaram pagando o ingresso às três ades: a idade, as responsabilidades, a sociedade. Alguns ainda estão por aí. Rondam como fantasmas tontos que buscam as luzes dos sets. Uns poucos ainda partem para uma briga perdida contra a burocracia da cultura.
Outros desistiram e se entregaram a atividades prosaicas, de terno e gravata. Embora talvez tenham feito uma embalagem de papel de bombom para os sonhos de fazer um filme, cuidadosamente guardada entre folhas de um velho roteiro.
Relataria ainda que ao lado do Odeon e do Juparanã, dos quais nós dois lamentamos o fechamento em torno de um copo de caipirinha, também se findaram o Paz, o Glória, o São Luís. Foi embora até mesmo o Santa Cecília. Enfim, não sobrou nenhuma das salas de cinema de rua, ainda que algumas estivessem abertas na época em que você̂ foi fazer companhia a alguns anjos tortos, entre os quais deve estar Ludovico Persici – eu diria.
- Em 1988, você me deu um livro, História do Cinema Capixaba, que tinha publicado e pouca gente leu. Falei que o nome era pretensioso. Mas você justificou com a necessidade de deixar um pedaço de suas memórias, que, afinal, são as mesmas de nós todos, loucos pelo cinema e que amávamos tanto falar sobre filmes, em um canto da rua do Rosário, no estranho bar sem nome a que denominávamos bar da Caramboleira.
Quanto a mim, eu confesso: não vi "O Sol no céu da boca", do Roberto Rocha, feito sobre seu conto. E não fiz nem um ínfimo curta-metragem, como havia prometido. E nem sei se vou fazê-lo. Continuo a escrever, porque estou convencida de que a literatura é minha forma de estar nesta nave extraviada, batendo aqui e ali pelas margens.
Ultimamente venho escrevendo muito sobre as décadas passadas. Não importa se são os anos galopando em vertigem, ou se é a língua da saudade, áspera, a roçar nos ouvidos. O que importa é que as recordações vão brotando. E eu as vou projetando, uma a uma, como um thriller na tela da vida.