Desde logo quero dizer que nada entendo de crítica literária. Estou a contento, em minha posição de escritora, tecedora de fantasmas, fantasias e espumas. Acredito que a literatura é um corpo vivo atravessando o tempo, em conformidade com a existência da humanidade. E os críticos literários são alfinetes que se cravam aqui e ali sobre esse corpo, muitas vezes com dignidade e respeitosa justiça; outras vezes à mercê de gostos pessoais ou razões pouco claras: ciumeiras, invejas, devoção às patotas etc.
Dito isso, passo a comentar, sem pretensão alguma, o que me parece ser, na literatura, uma tendência contrária ao famigerado “final feliz” e outras coisas mais determinadas, a exemplo do que já aconteceu na roda do tempo com alguns dos chamados “ismos”, tão caros aos críticos das Letras.
Agora, uma espécie de pessimismo difuso toma conta de verso e prosa, se bem que um tanto diferente daquele pregado pelo filósofo Arthur Schopenhauer, que se faz presente no Sol Negro da melancolia dos versos do poeta Augusto dos Anjos e na prosa realista de Machado de Assis.
Pois a literatura é um baú de costumes de que os servos da palavra fazem uso obrigatório, sempre à mercê do que vai pelo mundo. E o que vai pelo mundo atual é uma verdadeira, "natureza vermelha de dentes e garras", como a nomeou Lord Tennyson.
Hoje, as criaturas humanas estão mergulhadas em um universo de penumbra, em uma zona perturbadora de sombras, em um planeta ameaçado de extinção, mergulhado nos excessos devastadores de uma era tecnológica que afronta a confiança, a crença, a durabilidade da raça humana.
De tal forma isso acontece que a dita “realidade “, por si mesma, parece surreal e fantástica. Tudo isso está a se refletir na literatura, para além de modismos como o culto à identidade ou o apego aos gêneros literários. Não se trata mais de submissão a padrões literários delimitados e sim de fazer como faz a Alice de Lewis Carroll: entrar no espelho e lá encontrar o irreal, mais real e perturbador de que aquilo que a costumeira usual crítica literária costuma registrar.
Assim, a literatura atual de quem se dedica conscientemente à escrita de poemas ou de ficção adentra pela metafísica, sem se preocupar com tomar a bênção à limitação de categorias, tais como realismo, surrealismo ou irrealismo, tão amadas pela crítica de formato tradicionalista.
Vocês podem dizer que estou enganada. Para minha defesa, valho-me das palavras de Nietzsche, em “Humano, demasiadamente humano”: “Por falta de repouso... Em nenhuma outra época, os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto”.