Há uns três anos, recebi e-mail de um francês que vive em Lyon, na França. Apresentou-se como colhereiro, dizendo que tinha visitado o meu site sobre as colheres de bambu que venho fazendo desde que me recuperei de um infarto do coração. Ele tinha uma curiosidade objetiva: queria saber se, de fato, eu não vendia as peças que faço. Tratei de responder prontamente, confirmando que as fazia por pura diversão, sem qualquer motivação comercial. Aproveitei para dizer que muitas delas eram para presentear pessoas queridas e que atendia a encomendas sem ao menos fazer charme ou corpo mole.
Pierre François, esse é o nome dele, se mostrou entusiasmado com as minhas informações: “Então somos bem parecidos. Eu também não vendo minhas colheres.” Semanas depois, recebi um pacote com um bilhete amistoso e 2 colheres, super simpáticas e bem acabadas, próprias para a gente ficar admirando e alisando, enquanto pensa na vida. Achei por bem fazer três para retribuir e as mandei pra França, acompanhadas de mensagem própria de um colega de hobby e atitudes. Enquanto trabalhava nelas, fui revivendo o acontecido e refletindo sobre o quanto é instigante fazer algo para uma pessoa que nunca vi e com quem tenho coisas relevantes em comum.
Pois então, há poucos dias, minha filha Bebel usou toda a potência do facetime para colocar, frente a frente, os dois colhereiros que não misturam colheres com negócios. Confesso que fiquei emocionado ao conhecer o sorriso largo de Pierre e constatar o seu ar de cumplicidade ao me mostrar caixas repletas de colheres de todos os formatos. Em retribuição, apresentei pra ele as da nossa cozinha, a minha bancada de trabalho, as ferramentas que uso e as plantas do nosso jardim, com destaque para a jabuticabeira carregada. Fiz questão também de que ele visse Amora abrindo as asas enquanto o convidava para vir nos visitar e fazer uma exposição aqui em Vitória. Soube depois que ele adorou a ideia de vir ao Brasil e ajudar a compor mais um capítulo da emocionante história sobre a magia que envolve as colheres.