Na semana passada, recebemos a visita de Mário Duayer, querido amigo que conheci em 1971 quando fazia o mestrado na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. Colegas de turma em praticamente todas as disciplinas, nosso convívio era diário e se estendia para além da sala de aula. Em caravana, viajamos de carro para passar o carnaval em Salvador e montamos acampamento sob os coqueiros, da Praia de Piatã.
Eu participava de um programa de capacitação de professores idealizado por Máximo Borgo, então diretor da antiga Escola Politécnica da Ufes, como alternativa para poder contar com pessoal qualificado para ministrar disciplinas mais especializadas. Fiz parte da terceira turma de recém-formados que fizeram a pós-graduação e voltaram para serem contratados pela universidade.
Naquele tempo, a cidade era bem carente de profissionais habilitados em muitas das áreas da engenharia. Viver uns tempos na antiga Cidade Maravilhosa era também uma oportunidade para tomar um bom banho de civilização. O Rio era a capital cultural do país. A Zona Sul fervia ao ritmo das novidades e experimentações.
A convivência com Mário colocou na berlinda atitudes típicas de rapazes capixabas, incluindo a gozação e o uso de apelidos pejorativos. Ele defendia fervorosamente o respeito à individualidade alheia, algo inteiramente novo para mim. Pois foi de tanto ouvir suas reclamações que deixei de manter contato com uma morena interessante que estava de pé no corredor do ônibus quando embarquei na centro da cidade. O interesse foi recíproco e verdadeiro logo ao primeiro olhar e foi crescendo ao longo do Aterro do Flamengo.
Enquanto balançava, fui juntando forças para vencer a minha natureza e fazer prevalecer o tal do respeito. O ônibus passou pelo Túnel de Copacabana e logo que dobrou na Barata Ribeiro, a morena deu sinal para descer. De pé, na calçada, fora de alcance, ela me lançou um olhar de total desaprovação da minha atitude passiva. O fato é que, por respeito, porém inteiramente arrependido, perdi aquela morena. Mário morreu de rir da história.