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Crônica

Sobre as águas do mar e os sururus da Ilha do Boi

Aquilo me fez lembrar da estranha fartura de tartarugas nos mares de hoje. Digo isso porque, em toda a minha adolescência, nunca vi uma tartaruga nem sequer nas muitas dezenas de vezes que mergulhei em busca de lagostas nas encostas das ilhas

Publicado em 27 de Junho de 2025 às 02:00

Públicado em 

27 jun 2025 às 02:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

alvaro@bambuzau.com.br

Apesar de uma friaca danada, abastecida por um vento sul convicto, resolvi ir tirar sururus nas pedras da ponta leste da Praia da Esquerda da Ilha do Boi. Seria tarefa bem fácil, pelo fato delas estarem à mostra, sem ondas para atrapalhar a catação dos graúdos. Tinha acordado muito cedo e, ao conferir na internet, confirmei que maré estava na cota 0,00m, por conta da lua nova, em vigor.
Munido de chapéu, sacola reforçada, espátula de bambu resistente e boa disposição, desci a ladeira e passei pela placa que anunciava que o mar estava próprio para banho. Como era de se esperar, a praia ainda estava deserta. Quando chego lá para andar, sempre já tem gente na areia e dentro d'água.
Desta vez, com as atenções concentradas nos moluscos, pude confirmar algo estranho que vinha me intrigando: aqueles milhares de sururus minúsculos que sempre formavam uma espécie de tapete escuro na parte das pedras só banhadas pelas ondas, agora deram para crescer e formar grandes aglomerados, por falta de espaço para crescer pros lados. Eu nunca tinha visto algo parecido.
Sururus que cresceram na parte alta da pedra e das algas verdes.
Sururus que cresceram na parte alta da pedra e das algas verdes. Crédito: Carol Abreu
Ao comentar o fato com um tirador de sururu que conheço faz décadas, ele me disse que aquilo também era uma novidade. E foi mais adiante: não se lembrava de ter visto nem os sururus miudinhos que cresceram daquele jeito, nem a manta de alga verde claro que está cobrindo uma faixa da pedra entre as praias da Castanheira e das Panelas, lá na Ilha do Frade. Nem ele, nem eu.
Aquilo me fez lembrar da estranha fartura de tartarugas nos mares de hoje. Digo isso porque, em toda a minha adolescência, nunca vi uma tartaruga nem sequer nas muitas dezenas de vezes que mergulhei em busca de lagostas nas encostas das ilhas, nem quando navegava em snipes, disputando regatas, ou em cima de batera, pescando carapau, sempre vendo do alto as águas ao redor.
A explicação razoável que me vem para tamanha fartura, afora as contribuições do Projeto Tamar, é que já não mais existem os peixes graúdos, sobretudo robalos, xaréus e pampos, que comiam as tartaruguinhas recém-nascidas, as simpáticas e apressadinhas carebas. Acho que foi meu irmão Afonso quem pescou o último xaréu de 12 quilos, corricando com linha de mão, nas águas da Ilha Rasa, numa lanchinha de motor de popa.
Pouca gente sabe que, nos idos de 2010, na monografia que apresentou para se graduar em oceanografia na Ufes, Diana, nossa caçula, comprovou por A+B, com ensaios eco-toxicológicos, que os particulados do minério, produzidos e escoados pelas empresas da Ponta de Tubarão, prejudicam, chegando a inibir o desenvolvimento das larvas de ouriço nas pedras submersas. Sua descoberta foi reconhecida pela PMV, merecendo o primeiro lugar no Prêmio Tião Sá, em Pesquisa Ambiental. Torço para que os ouriços não tenham sido exterminados.
Para não deixar ponto sem nó, informo para os devidos fins que voltei pra casa de alma leve, carregando uma sacola repleta de sururus e tão realizado como ficava ao voltar da Gaeta de Dentro, rebocando uma boia de isopor, com uma sacola de cheia de sururus enormes, recolhidos no pé das pedras, de mergulho. Manaíra e Bebel, minhas filhas mais velhas, contam morrendo de rir, que morriam de vergonha do pai saindo do mar com chapéu de palha, cheio de tralhas, em plena Praia da Direita, então reduto das cocotas e da rapaziada cheia de amor pra dar.
Soube pela imprensa que empresas espanholas virão ganhar dinheiro aqui, depois que conseguirem despoluir as águas da Baía de Vitória. Humanos, animais e vegetais vão adorar o nosso mar limpinho.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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