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Crônica

Estantes e livros são vastos como o mundo de Drummond

Da pandemia pra cá, além de vastos como o mundo de Drummond, estantes e livros passaram a compor ambientes que carregam eles também sua história

Publicado em 30 de Junho de 2024 às 02:00

Públicado em 

30 jun 2024 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

ana.laura.nahas@gmail.com

“Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração”. (Carlos Drummond de Andrade)
Estantes e livros são vastos como o mundo de Drummond.
No trabalho, a alegria é que estejam em movimento, os volumes de mão em mão, uma página depois da outra, na companhia de quem ama a leitura e as histórias que ela carrega. Em casa, nos dias de descanso, o melhor é que fiquem livres do barulho e da poeira, das más línguas e da guerra, da tristeza e dos problemas, protegidos como a crônica de outro dia, uma mistura perfeita de cura e repouso.
Tanto num quanto na outra, o bom é que sejam lidos, compreendidos e, sempre que possível, partilhados, passados adiante. Que não encontrem fronteiras e ajudem quem precisa fazer as pazes com o curso da vida. Que sejam lugares de afeto, canções e cafuné. Que emoldurem espaços de reconstruções, reformas ou revoluções. Que ampliem o pensamento, ensinem a ver melhor, mais longe e mais de perto.
Da pandemia pra cá, além de vastos como o mundo de Drummond, estantes e livros passaram a compor ambientes que carregam eles também sua história. Afinal, isolados como estávamos nos ferozes meses de quarentena, as prateleiras acabaram alçadas à condição de cenário, com toda sorte de tipos, sentimentos, diálogos e desfechos à espreita.
Lá em casa, por exemplo, é possível que o velho e desajeitado exemplar de “Cartas Extraordinárias” atrás de mim indicasse aos colegas de videoconferência meu interesse pela correspondência alheia.
É certo que os latino-americanos enfileirados, com Gabriel García Márquez ao lado de Eduardo Galeano, Isabel Allende, Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, entregassem meu gosto pelo político do continente.
Pode ser que o fato de “Demian”, “Sidarta”, “O Lobo da Estepe” e “O Jogo das Contas de Vidro” estarem enfileirados nesta ordem e não em outra dissesse algo sobre minhas buscas e contradições.
O que dizer, então, da pilha à espera de leituras, releituras ou resenhas? Como “Guerra e Paz” foi parar ao lado do doído relato de Joan Didion sobre perdas e o luto? Onde os descansos de “Mulheres que Correm com os Lobos” se cruzam com a fina ironia de José Carlos Oliveira em seu “Bravos Companheiros e Fantasmas”?
Em que parte da estrada, Reinaldo Santos Neves, Fernando Tatagiba, Carmélia Maria de Souza, Beatriz Abaurre e a minha própria produção, em edição redesenhada, esbarram nos ensinamentos do Tao-Te-King, na nostalgia do “Encontro Marcado” e no volume levinho de textos reunidos entre novos autores do Brasil?
Estantes e livros são vastos como o mundo de Drummond - Raimundo, gauche, o bonde, o homem que quase não conversa, rima, solução, deus, conhaque, a lua, o coração vasto como o mundo, aquele poema todo, que bota a gente comovido como o diabo.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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