Questões muito sérias estão por trás da manutenção da Selic em 2% decidida nesta semana pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Nas circunstâncias atuais da economia, esta decisão espelha mais fatores negativos do que positivos. Esse é o ponto crucial.
O cidadão comum logo pergunta: o que muda na minha vida com a permanência da Selic no patamar em que estava? Nada. De imediato, ninguém vai sentir impacto no bolso. Mas os 2% sinalizam posição prudente da autoridade monetária diante de riscos no cenário econômico. A atenção maior deve ser no que pode ser mudado nos próximos meses na vida da sociedade e não no fato de a Selic ter ficado congelada, temporariamente.
É muito fácil e simples entender que a taxa básica em 2% é coerente com a fraqueza dos indicadores econômicos, com o desemprego muito elevado, e que há necessidade de estímulo da política monetária à economia. Perfeito. Mas também é preciso ficar atento à existência de dois riscos principais no cenário: o risco fiscal (péssimo estado das contas públicas) e o risco inflacionário, puxado pela alta exorbitante dos alimentos. As duas inquietações (a inflacionária e a fiscal), dentre várias outras, implicarão em mais dificuldades para a prática de juros menores ao consumidor.
Se o momento requer política monetária que ajude a dinamizar a atividade econômica, por que a Selic não caiu para alguma coisa menor que 2%? Justamente em função desses dois riscos. Primeiro, o inflacionário. Há quem diga que seria temerário, em meio à alta de preços de produtos essenciais. Estimularia mais aumentos, apesar da demanda estar deprimida. O Banco Central está apostando que a inflação dos alimentos é passageira, e logo perderá força. Tomara. Ademais, todo mundo sabe que os preços do arroz, do feijão, do óleo de soja etc. não seriam reduzidos se a Selic tivesse recuado para menos de 2%.
De fato, a parte fiscal é mais preocupante. Novo corte da Selic também seria considerado ousado. Desestimularia a entrada de capitais e incentivaria a saída. Porém, o maior temor está em eventual elevação dos dispêndios públicos, acima do chamado teto dos gastos. E parece que o governo tomou gosto pelo impulso gastador. Se houver sinal de que o teto fiscal será desrespeitado, a desconfiança irá se alastrar na economia. Descontrole fiscal é veneno. Nesse caso, o Banco Central terá de elevar os juros.
O estímulo da política monetária (manutenção da Selic em 2%) está condicionado à trajetória das contas públicas e à expectativa de uma inflação futura que não ameace a meta anual.