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Atualidade

Como estamos e para onde vamos: 3 reflexões conexas da atualidade

Convido o leitor para uma resenha sobre as reflexões lúcidas, conexas e instigantes de Henry Kissinger, Martin Wolf e Marcos Nobre que merecem nossa atenção

Publicado em 18 de Junho de 2022 às 02:00

Públicado em 

18 jun 2022 às 02:00
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

acmdob@gmail.com

Três reflexões lúcidas, conexas e instigantes merecem nossa atenção. Peço licença para a resenha e convido o leitor para fazer as conexões. Começando por Henry Kissinger em Davos.
Com a ambiguidade peculiar à diplomacia internacional, ele chamou a atenção da Catedral do Capitalismo para a inflexão histórica estimulada pela tensão EUA-China, a guerra da Ucrânia e o relacionamento da Europa com a Rússia.
Julga urgente o diálogo entre Ucrânia e Rússia e retoma a sua antiga ideia do ideal da Ucrânia estabelecer-se como Estado neutro, “como uma ponte entre a Rússia e a Europa”. Para ele, “a Rússia tem sido, há 400 anos, uma parte essencial da Europa”. Ele entende ser essencial restaurar esse papel, “para a Rússia não ser forçada a uma aliança permanente com a China”.
Kissinger percebe o potencial de um novo sistema internacional, incluindo a ascensão do Brasil, Índia e Irã. Nessa direção, ele mostra que é importante, para as necessidades gerais do mundo, que Estados Unidos China atenuem suas relações de adversários, “reconhecendo que, se entrarem em conflito, as consequências serão muito graves”.
Em suma: como construir uma nova ordem mundial alicerçada no multilateralismo?
Aí vem a reflexão de Martin Wolf, com premissas para entender o mundo de hoje. De forma esquemática: (1) o mundo está ameaçado “pela espada, pela fome e pela pestilência”; (2) numa era de guerras culturais, de política identitária, de nacionalismo e de rivalidade geopolítica, a primazia não é mais da economia, mas da política; (3) a tecnologia continua sua marcha disruptiva e o mundo está dividido também por este parâmetro; (4) as disparidades políticas entre as democracias ocidentais e a Rússia e a China são profundas; (5) apesar da ascensão vertiginosa da China, o Ocidente (definido como as democracias de alta renda) é poderoso; (6) mas o Ocidente também está muito dividido – no âmbito dos países e entre eles.
Ele segue: (7) a Ásia tende a se tornar a região econômica dominante no mundo; (8) as democracias de alta renda terão que melhorar seu jogo político, se quiserem alianças com os países emergentes; (9) a cooperação mundial continua essencial; (10) a globalização não morreu; (11) em vista dos imensos desafios políticos e organizacionais, a probabilidade da humanidade proteger o clima é pequena; e (12) a inflação está desenfreada.
Ele desafia: “Nossos dirigentes têm que ficar à altura da ocasião. Será que ficarão?”
Por último, a reflexão de Marcos Nobre. Diz ele que “perdendo ou ganhando, o bolsonarismo já ganhou. Derrotá-lo será tarefa para muitos anos”. Ele observa que o campo democrático “continua jogando amarelinha”, enquanto “Bolsonaro monta o octógano de MMA do golpe”. Que “ele dará como for possível: conseguindo a eleição e fechando o regime desde dentro, produzindo um caos social duradouro, aguardando o fracasso do seu sucessor e as eleições de 2026, ou dando um golpe nos moldes mais clássicos”.
Para Nobre, o âmago da questão é o de que Bolsonaro “hackeou o sistema político”, com sua sofisticada organização digital, de alto grau de organização e profissionalismo. Formou o que ele chama de “Partido Digital”, que instrumentaliza a institucionalidade vigente e os próprios partidos políticos - agora, seus instrumentos são o PL, o PP e o Republicanos.
Para onde vamos?

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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