Com a participação de parcela significativa do empresariado capixaba, o
governo estadual lançou há poucos dias um Fundo de Investimentos em Participações (FIP), vinculado ao
Fundo Soberano do Espírito Santo. Além desse FIP, já em operação, o governo anunciou também o próximo lançamento de um Fundo de Debêntures, também vinculado ao Fundo Soberano.
Com recursos oriundos das receitas dos royalties e participações especiais do petróleo, o Fundo Soberano é alimentado regularmente e possui, hoje, recursos de cerca de R$ 813 milhões, anunciou o
governador Renato Casagrande. Isso significa, já, capacidade para alavancar e fomentar investimentos da ordem de R$ 2,5 bilhões na economia capixaba.
O FIP é da ordem de R$ 250 milhões e é destinado a investimentos em startups. A ideia é fomentar o mercado de inovação e tecnologia, ampliando a nascente cadeia de hubs de inovação já existentes no Estado, principalmente em
Vitória. Uma gestora privada de escala nacional, a TM3 Capital, foi selecionada através de processo licitatório. Significa a garantia de critérios técnicos de análise do custo-benefício e do efeito multiplicador na economia na seleção dos projetos - sem interferência política. Bom começo.
Tanto o FIP em startups quanto o Fundo de Debêntures empresariais estão sob a responsabilidade do
Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes). No lançamento do FIP, o governador Casagrande revelou que, em 2019, chegou a cogitar a liquidação do Bandes, por julgar que o banco tinha perdido a sua própria essência, a de instituição de fomento ao desenvolvimento. Veio daí a ideia de alocar no Bandes a gestão e operação dos fundos de participações do Fundo Soberano. Uma espécie de “retrofit” institucional para recuperar a capacidade de fomento.
Eis aí um desafio para a nova direção do banco e para o seu quadro de colaboradores. Nos anos 1970, 1980 e 1990, principalmente, o Bandes teve papel significativo de fomento. Primeiro, operando um fundo chamado Funres (Fundo de Recuperação do ES). Depois, operando recursos de outro fundo, o Fundap (Fundo de Desenvolvimento das Atividades Portuárias). Entretanto, nos anos 2000 e 2010, esses fundos perderam recursos e relevância. Veio daí a perda de relevância do Bandes.
Conjugada com a perda de relevância, o Bandes também sofreu perda de credibilidade no meio empresarial capixaba. Tornou-se excessivamente burocrático, avesso ao risco e entrópico. Com baixa capacidade de entrega e de alavancagem de investimentos. É aqui que está um nó górdio a ser desatado pela atual gestão e as próximas.
O meio empresarial, apesar de recepcionar com entusiasmo a ideia do Fundo Soberano, ainda duvida da capacidade de entrega do banco. A conferir. A atual gestão, sob a presidência de Munir Abud, anunciou lucro recorde em 2021. Bom sinal. Mesmo assim, o empresariado ainda mantém um pé atrás, ainda que evoluindo para o benefício da dúvida.
Um Fundo Soberano estadual é uma iniciativa pioneira. Sincronizada com a ideia contemporânea do Estado e os governos desenvolverem capacidade empreendedora de estímulo a investimentos estruturais capazes de efeito multiplicador na economia. Como são, por exemplo, os investimentos em inovação, educação e infraestrutura.
Mãos à obra. Ao governo cabe desenvolver capacidade empreendedora e de entrega. Ao meio empresarial capixaba, cabe estimular o “espírito animal” da tomada de riscos e realização de investimentos, essências do desenvolvimento.