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Agenda de desenvolvimento

Brasil e as mudanças para deixar tudo do jeito que sempre foi

Fora do Executivo, as forças reacionárias encasteladas no Poder Legislativo atuam para bloquear qualquer tentativa de uma agenda de desenvolvimento contemporânea e resgatadora de dívidas históricas

Publicado em 01 de Junho de 2023 às 00:30

Públicado em 

01 jun 2023 às 00:30
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

arlindo@villaschi.pro.br

(Des)envolvimento é quebrar com práticas obsoletas para que um novo processo possa se dar. Em termo econômicos, significa a busca de alinhamento com as fronteiras do processo de crescimento mundial. Ao longo de boa parte do século XX, vários países (inclusive o Brasil) tentaram esse alinhamento através da industrialização retardatária.
Para tal enfrentaram forças conservadoras que defendiam processos econômicos tradicionais geralmente ligados à exploração primária exportadora. No caso brasileiro, essas forças conservadoras criaram obstáculos mais do que ao processo de industrialização; se opuseram a tudo o que ela trazia em seu bojo: novas relações capital/trabalho; novas formas de atuação do poder estatal; melhorias nos serviços básicos de saúde, educação, habitação, transportes, dentre outros.
Em termos sociais e culturais, (des)envolvimento no Brasil significa quebrar com práticas seculares de escravagismo, etnocídio, machismo, total descaso para com a natureza e para com os interesses da maior parte da população. Nesse sentido a Constituição de 1988 foi o passo político mais abrangente na direção de uma agenda positiva para as relações Estado/sociedade.
Os embates entre posições diversas ao longo do processo constituinte continuam até os dias de hoje. Se a aplicação de preceitos constitucionais se faz de forma a interferir menos com interesses de minorias acostumadas a privilégios históricos a reação desses é mais branda.
As reações mudam quando a aplicação da Constituição se faz no sentido de valorizar efetivamente a participação da maioria da população no processo de crescimento econômico. Mudam quando o pagamento da dívida histórica para com povos originários e quilombolas deixa de ser figura de retórica e passa a ser paulatinamente praticada. Mudam quando a valorização da natureza brasileira passa a ser efetiva ainda que muito timidamente.
Bandeira do Brasil
Bandeira do Brasil Crédito: Pixabay
Mudam porque forças a quem só interessa a manutenção de privilégios perpetuados via exploração da força de trabalho; descaso para com saberes ancestrais e para com a natureza se sentem ameaçadas. Ameaças a privilégios que são vendidas através de fake news e propaganda enganosa como obstáculos ao crescimento econômico.
Quando no exercício do poder essas forças rapidamente desmontam ou desmantelam todos os aparatos estatais construídos para o desenvolvimento econômico, social e político focalizados no que o Brasil tem de melhor: sua gente e sua natureza. Foi assim no governo cujo mandatário foi rejeitado pelo voto popular após quatro anos de desmandos de toda ordem.
Fora do Executivo, as forças reacionárias encasteladas no Poder Legislativo atuam para bloquear qualquer tentativa de uma agenda de desenvolvimento contemporânea e resgatadora de dívidas históricas da sociedade brasileira. A elas nada interessa o Brasil voltar a ser protagonista nas relações internacionais. Entendem acordos voltados para o enfrentamento da emergência climática para o que a natureza e os povos das matas e das águas brasileiras muito têm a contribuir como ameaça inaceitável a seus privilégios.
Nada interessa a operacionalização de políticas industriais, científicas, tecnológicas e de inovação que possam afirmar a soberania do país. Preferem repetir dogmas de estado mínimo e liberdade de mercado onde subsídios continuem sendo destinados a quem preda a natureza e explora mão de obra como se escrava fosse. A elas interessa a subordinação acrítica a interesses do sistema financeiro internacional, o que significa sufocar a atividade produtiva e consumidora brasileira às mais altas taxa de juros e spreads praticadas no mundo.
O projeto de nação que essas forças têm para o Brasil é a continuada e acelerada depredação de tudo que a natureza legou e os brasileiros buscaram construir ao longo do tempo. Daí a criação de blocos parlamentares onde o que interessa são privilégios para tudo continuar atrasado para a maioria e benefícios fluindo para as minorias de sempre.
Lamentavelmente o que está sendo bloqueado é um projeto de desenvolvimento que pode ser aperfeiçoado com uma discussão social ampliada. Bloqueio feito em nome de mudanças para deixar tudo do jeito que sempre foi.
Por isso essas forças reacionárias precisam ser enfrentadas por quem acredita em um Brasil democrático, soberano, inclusivo e socialmente justo. Sabendo-se que o atraso consegue convergir mais facilmente o apoio a partir de interesse diversos e mesquinhos do que a pauta ampla de um projeto de Nação que o Brasil, sua gente e suas coisas merecem.
Ainda assim, vale intensificar a mobilização social que assegure presente e futuro melhores para a maioria da gente brasileira que merece um outro Brasil possível.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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