O devido enfrentamento da emergência climática que coloca em risco a maior parte da sociedade humana como a conhecemos continua sendo irresponsavelmente adiada devida a dois estratagemas que se complementam. Por um lado, segmentos empresariais que mais contribuem para o desequilíbrio ecológico se colocam através de propaganda enganosa como defensores do meio ambiente.
Petroleiras; mineradoras; produtores de grãos e agropecuária em larga escala que desmatam, usam intensivamente água, adubos químicos e herbicidas, se apresentam via os mais diversos meios de comunicação como engajados na sustentabilidade ambiental. Promovem e apoiam iniciativas culturais com rótulos ambientais – usando e abusando do greenwashing (faz se conta verde).
Ao mesmo tempo continuam suas práticas predadoras, sob a proteção de órgão de controle inertes e de decisões judiciais que se adiam graças a contestações que se sucedem por seus advogados.
Exemplos dessas práticas diversionistas estão espalhados por todo o mundo Ocidental. Campanhas de petroleiras que se apresentam como empresas preocupadas com energia limpa; mineradoras que se vendem como geradoras de soluções preocupadas com a questão ambiental; o agronegócio que se coloca como gerador de riquezas econômicas e sociais.
Independentemente de todas as evidências de seus crimes ambientais – como é o caso da Vale/Samarco no caso de Mariana que continua afetando todo o Vale do Rio Doce e a Costa capixaba – empresas poluidoras se apresentam cinicamente como defensoras da causa ambiental. Fazem isso através da promoção de eventos culturais e em propagandas veiculadas nos grandes meios de comunicação empresarial e nas redes sociais onde se apresentam como genuinamente engajados na sustentabilidade socioambiental. E mais, como sustentáculos econômicos das regiões onde atuam.
O necessário enfrentamento da emergência climática, por outro lado, conta com complacência das estruturas de Estado. Mundo afora poderes executivos, legislativos e judiciários fazem vistas grossas ao descumprimento de estatutos legais voltados para a proteção de pessoas (com destaque para povos originários) e de recursos naturais.
Uma vez mais, descumprimentos que se acumulam em atividade de exploração de gás e petróleo, de minérios e no agronegócio. E isso se dá de forma hipócrita por parte de governos que se apresentam em fóruns internacionais como signatários de acordos voltados para o enfrentamento de questões ambientais e em seus respectivos territórios aceitam práticas insustentáveis.
O mais recente caso a ser denunciado por ativistas ambientais é o da Noruega. Famoso por seus fiordes e florestas de contos de fadas, o país mais ao norte da Europa é o mais próximo que o mundo tem daquilo que poderia se chamados de um petroestado verde.
No sentido contrário ao que fazem seus cidadãos engajados em práticas ambientalmente sustentáveis, seus líderes políticos e empresariais procuram de forma intensiva combustíveis fósseis para vender à Europa. Em termos per capita, a Noruega extrai mais petróleo do que a Rússia, o Iran, os Estados Unidos e a Arábia Saudita.
Diante desse quadro distópico de ação de empresas e governos é fácil adotar a retórica conservadora do ‘sempre foi assim e assim é’ e todas as ações preocupadas como o meio ambiente continuarem pautadas pelo ‘mudar para continuar tudo igual’. E nessa toada aceitar no Brasil e no Espírito Santo de forma acritica o que apregoam empresas e governos sob o que é crescimento econômico.
O enfrentamento desse discurso e dessa prática distópica se faz necessário para que, no mínimo, se busque possibilidades de desenvolvimento pautadas no humanos e em todos os demais viventes. Essa busca é importante para que se recupere nos jovens a vontade e a determinação pelo direito ao futuro.
Recuperação fundamental para quebrarmos a crescente sensação de todos e de todas as idades que no passado o futuro era melhor.