O histórico e crescente processo de globalização de mercados fornecedores e consumidores de produtos vem há algum tempo sendo questionado quanto a seus resultados econômicos, sociais e políticos. Questionamentos em função da crescente concentração da produção em poucos conglomerados com ramificações mundo afora; da baixa relação entre os aumentos de produção e produtividade e os indicadores de bem-estar humano; e do aumento de ingerências políticas dos grandes conglomerados em todos os níveis de poder, nacionais e multinacionais.
Esses questionamentos ganharam novos contornos quando as chamadas cadeias globais de valor cada vez mais direcionadas para a China passaram a ser exploradas em diversos países do Ocidente como causa principal da estagnação econômica e deterioração social neles evidenciadas. A crise da Covid-19 e as recentes disputas na geopolítica mundial intensificaram a cautela com que países tratam a até recentemente idolatrada globalização econômica.
As respostas por parte dos países desenvolvidos no Ocidente têm sido em maior ou menor grau a volta de políticas industriais com vistas à maior autonomia em seus processos produtivos. O que até recentemente era visto como heresia por apologistas da liberdade de mercado passa a ser aceito como forma de conter a crescente participação oriental centrada na China na economia mundial.
Para os interesses geopolíticos de países como o Brasil, é fundamental melhor qualificar, por um lado, sua inserção econômica no processo de globalização. Nesse sentido é preciso abandonar os históricos processos de apoio irrestrito às exportações de commodities de baixo conteúdo tecnológico e alto grau de exploração de recursos naturais.
Por outro lado, é mais do que chegada a hora do Brasil adotar políticas industriais abrangentes voltadas para o atendimento de suas necessidades internas em áreas como saúde, educação, habitação, transporte, saneamento, dentre outras. Políticas industriais que também podem ser operacionalizadas para melhor qualificação de sua inserção no processo de globalização em curso.
Aqui, mais do que nunca, é fundamental evitar o aprisionamento à falsa ideia de que é uma coisa (mercado externo) ou outra (bem-estar interno). O momento é de pensar e agir com vistas ao círculo virtuoso que se dá quando as dimensões externas e internas são vistas como suplementares umas à outras.
Os resultados positivos de pensar estrategicamente o desenvolvimento do país têm evidências na história recente. Elas podem ser buscadas em Vargas, em JK, em Geisel e nos mandatos de Lula e Dilma.
O mundo era outro, os tempos eram diferentes, mas a premissa de que o desenvolvimento necessita de uma visão estratégica continua válida. Equalizar desenvolvimento a crescimento e deixar esse ao sabor dos interesses da financeirização mundializada são equívocos imperdoáveis diante de tudo o que está acontecendo no mundo e do que o Brasil e sua gente merecem.
Hora de colocar cabeças e mãos à obra no desenho e construção de um outro Brasil possível. Os desafios e os caminhos são múltiplos e variados.
Baixar a taxa Selic e os spreads praticados pelos bancos é um primeiro passo necessário.