Há décadas no mercado da comunicação, como empresário e publicitário ou como professor universitário, vi muitas “ameaças” anunciadas ao nosso ofício: a chegada da mídia digital, o avanço do programático, os dashboards em tempo real, os algoritmos de recomendação.
Em todas elas, o roteiro foi o mesmo: quem se agarrou ao passado perdeu relevância; quem aprendeu a nova linguagem manteve-se no mercado. Com a Inteligência Artificial, não é diferente, ela veio com tudo.
O discurso que existe por aí, de que “a IA vai substituir o profissional de marketing” é raso. A IA já está automatizando tarefas analíticas e repetitivas. Tudo aquilo que envolve volume, padrão e rotina tende a ser feito melhor por máquinas. Exatamente por isso, o valor real migra para o humano, para quem tem pensamento crítico, capacidade de ler contextos ambíguos, fazer perguntas incômodas, construir sentido com a equipe e com a sociedade.
O novo profissional de marketing precisa aprender a trabalhar nesse ambiente complexo, onde dados, tecnologia e criatividade convivem de forma inseparável. Isso significa entender, por exemplo, como a ciência de dados atravessa todo o processo de decisão em marketing, compreendendo como dados são gerados, tratados e transformados em insights.
A Inteligência Artificial pode ampliar capacidades analíticas, mas são as pessoas que constroem confiança, alinham visões e conduzem transformações dentro das organizações.
Isso significa dominar processos estruturados de ideação, compreender a lógica da economia criativa e aplicar metodologias ágeis para transformar ideias em projetos e projetos em soluções de mercado.
A criatividade continua sendo uma das grandes forças do marketing, agora potencializada por ferramentas capazes de testar hipóteses, gerar protótipos e acelerar ciclos de experimentação.
Em um cenário em que qualquer pessoa pode apertar um botão e gerar um texto, uma imagem ou um rascunho de campanha, a pergunta não é “quem sabe usar IA?”, mas “quem sabe usar IA para fazer perguntas melhores, escolher caminhos mais inteligentes, desenhar estratégias mais relevantes e eticamente responsáveis?”.
A diferença não está na ferramenta, mas nas pessoas, no conhecimento acumulado, na compreensão de marcas, mercados e comportamento humano. Precisamos de repertório, de habilidade para conectar tecnologia, negócio e cultura. Precisamos nos reinventar como profissionais disruptivos em um ambiente orientado por dados e algoritmos.
Tudo isso sem perder o que nos é mais caro, nossa inteligência emocional. No passado já foi assim, quem se limitar a “operar ferramentas” será, cedo ou tarde, substituído. Porque, no fim, não é sobre tecnologia. É sobre gente que sabe aprender, liderar e criar valor diferenciado a partir dela.