O carnaval é a festa de gala do beijo. Tem selinho para todo lado, beijões cinematográficos aqui e ali e da avenida, rainhas e plebeus, igualmente generosos, distribuem beijos com fartura. Por alguns dias, somos o país do beijo. Pode existir delícia maior que essa? Neste mundo infestado por bocas que se abrem para promover o ódio, somos essa possibilidade de comunicar amor ao entreabrir lábios e insinuar longas frases compostas por sussurros, fazer promessas de alegria sem sílabas.
No Brasil dos beijoqueiros, os braços querem distribuir abraços e não socos e pontapés. Quem vai pensar em guerra e violência bem no meio de um beijo épico? Um bom beijo sela a paz. Serena os ânimos. Harmoniza. Se Castro Alves disse que o beijo fecha o ouvido ao rumor do mundo, quem somos nós para discordar?
Tudo que importa na geografia da poesia é que, em algum lugar do universo, existe uma semana em que a quantidade dos beijos se multiplica. É nesse ponto que bocas derrubam fronteiras invisíveis. Outros mapas são traçados.
Entre os lábios há um segredo que só o corpo sabe decifrar. O beijo é a poesia do corpo, a linguagem que não precisa de palavras porque já é, em si, um poema.
O beijo é geografia e química, poesia e filosofia, psicanálise e ioga. É uma meditação involuntária, um estado de presença plena onde o tempo e o espaço se dissolvem.
Provavelmente, a humanidade aprendeu a beijar antes de escrever. Gosto de pensar que o tratamento especial dado ao beijo por quem escreve vem desse conhecimento ancestral.
Escritores e poetas receberam a missão de tentar transcrever esta materialização do imaginário, a concretização de um desejo que, antes de ser vivido, já foi sonhado. Um dos meus poetas prediletos, o moçambicano Mia Couto, diz assim: "Não quero o primeiro beijo: basta-me o instante antes do beijo. Quero-me corpo ante o abismo, terra no rasgão do sismo".
Com esse poema aprendi que é esse o instante que a memória guarda. O instante que antecede os beijos que se eternizam. Aqueles que realizam sonhos que não sabíamos que tínhamos. Os que nos despertam. Nos permitem mergulhar no inconsciente e trazer à tona aquilo que estava escondido. Há esses beijos que nos arrastam para dentro de nós e nos conectam com nossa alma.
Mas nem todas as letras e línguas explicam beijos assim. É o mistério da química do desejo. São os beijos que não foram feitos para nos completar, mas para nos expandir. Existem para nos lembrar que somos, antes de tudo, corpos que sentem, que buscam, que se conectam.
O beijo é a celebração do incompleto, do imperfeito, do efêmero. É a aceitação de que o amor não é uma posse, mas uma entrega. Todos os amores, de todas as naturezas.
Se puder, escolha os melhores beijos no carnaval. A festa é profana, mas o beijo é sagrado.