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Sextas Crônicas

'O Filho de Mil Homens' e a leveza do afeto escolhido

A sensação que fica, ao apagar da tela, não é de tristeza ou euforia. É de uma paz morna, como fim de tarde na praia, em dias de verão

Publicado em 28 de Novembro de 2025 às 03:00

Públicado em 

28 nov 2025 às 03:00
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

aure@aureaguiar.com.br

Há filmes a que assistimos, e há aqueles que nos visitam. Chegam em uma noite de domingo, para uma faxina emocional. Desfazem nós na garganta, retiram acúmulos inúteis da mente, destravam as águas dos nossos olhos, varrem o assoalho do nosso peito e deixam o coração limpo e aquecido . Feito visita boa mesmo, que deixa um rastro de benefícios na saída.
"O Filho de Mil Homens" não entra fazendo alarde, mas senta-se em silêncio no canto da sala. Sem nos darmos conta, ele começa a morar em nós. Seus silêncios e suas vozes chegam ao coração antes que aos ouvidos. Dá para entender logo que é um filme que vai permanecer. A delicadeza do afeto te pega de jeito. O filme te convoca a chegar mais perto.
O silêncio é um dos personagens e dupla com a voz narrativa de Zezé Motta para produzir um grande encontro. O que se ouve é o barulho interno da alma de Crisóstomo, um pescador que tem no peito um oceano de ausências. Aos quarenta, ele não chora a falta de filhos. Chora, quem sabe, a falta de um porto, de uma âncora que o faça menos ilha. Na beira da sua solidão azul, encenada pelo brilhante Rodrigo Santoro, em frente ao mar de Búzios, um universo mágico começa a rearranjar as peças de vidas entrelaçadas dispostas a saírem das suas posições fetais.
Rebeca Jamir, Johnny Massaro, Miguel Martines e Rodrigo Santoro em cena de 'O Filho de Mil Homens
Rebeca Jamir, Johnny Massaro, Miguel Martines e Rodrigo Santoro em cena de 'O Filho de Mil Homens" Crédito: Divulgação/Netflix
O filme é poético, como o livro de Walter Hugo Mãe. O menino Camilo traz leveza ao drama e amplia o olhar sobre possibilidades que vão além de laços de sangue. Estão lá tudo o que se precisa na vida, acolhimento e afeto. E abraços, muitos abraços.
“O Filho de Mil Homens” não é um filme para dar spoiler, é para convocar amigos, amores e parentes para que assistam. É urgente recebê-lo como um presente de Natal que ajuda a desembrulhar a vida. Que coloca o silêncio afetuoso no lugar de ruídos. Que dá chance de fala às conchas, cheias de mistério e poesia.
A sensação que fica, ao apagar da tela, não é de tristeza ou euforia. É de uma paz morna, como fim de tarde na praia, em dias de verão. Somos todos filhos de mil anseios, de mil encontros, de mil caminhos que nos trouxeram até a mesa onde finalmente nos sentimos em casa. E um lar é o lugar escolhido pelo coração.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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