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Sextas Crônicas

O mal é o que sai da boca

O Papa Leão XIV fez uma bela leitura das questões globais e convidou a todos para um jejum de palavras. As más. A proposta é renunciar às palavras que ferem, que dividem, que destroem

Publicado em 20 de Fevereiro de 2026 às 03:45

Públicado em 

20 fev 2026 às 03:45
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

aure@aureaguiar.com.br

A palavra é mágica. Não a use para fazer alquimia do mal. Essa é a abertura do meu texto "Detox", do livro “Cuide dos seus achados. Esqueça os seus perdidos”. Escolhi ser guiada por esse texto nesta crônica.
O carnaval deste ano exagerou na catarse. Suei para manter o espírito conectado com a alegria da folia, entre tantas notícias trágicas e confusões até entre os artistas. Mas chegou a Quaresma e, independentemente de religião, o mundo volta-se à escolha do tema para os 40 dias de reflexão sugeridos pelo Cristianismo.
O Papa Leão XIV fez uma bela leitura das questões globais e convidou a todos para um jejum de palavras. As más. A proposta é renunciar às palavras que ferem, que dividem, que destroem.
Volto a reler meu texto "Detox". Se o que for sair da sua boca puder espalhar discórdia, cale-se. Se é para causar dor, cale-se. Se é para destruir, cale-se. Se é para instigar o ódio, cale-se. Se é para multiplicar dúvidas, cale-se. Se é para caluniar, cale-se. Se é para envenenar, cale-se. Se é para entristecer, cale-se. Se é para acusar, cale-se. Se é para bajular, cale-se. Se é para maldizer, cale-se.
A palavra nunca é inocente. A palavra que fere raramente nasce do acaso: ela é o braço armado de uma ferida antiga, de uma inveja não confessada, de um medo que encontrou no outro o espelho mais conveniente para se projetar. Mesmo aquelas ditas “sem querer” ou “no calor da hora” têm muito peso subjetivo. Palavras importam. Curam, mas também adoecem.
Somos constituídos de linguagem, e a linguagem não é só palavra. Por isso, até as palavras não proferidas nos afetam. De alguma forma, o silêncio sabe escrever no nosso inconsciente palavras difíceis de apagar. O que nos disseram ou as palavras que nos negaram, principalmente na infância, nos definiram sem pedir permissão. O ciclo da violência verbal é um ciclo de dor não elaborada por quem o pratica, porque esse já esteve nele como vítima e o repete. E aí entra o chamado do papa e a melhor dica para a quaresma: controlar nossas palavras.
De novo aqui, um trechinho de "Detox": Cale-se para tudo que apodreça o dharma do planeta. Morda a língua e engula toda palavra que amaldiçoa o universo onde habitam a sua alma e a alma do outro.
Se a psicanálise nos implica com os nossos ditos e não ditos, a sociologia acrescenta outra camada. Linguagem é um campo de poder. Certas palavras não apenas descrevem a realidade, mas a constroem, a hierarquizam, a excluem. Quando reduzimos uma vida a um rótulo ou o discurso para silenciar em vez de dialogar, estamos exercendo uma violência que não deixa hematomas visíveis, mas que destroça identidades e sufoca subjetividades.
Papa Leão 14 celebrou a missa de encerramento do Jubileu da Juventude para cerca de 1 milhão de pessoas
Papa Leão 14  Crédito: Cecilia Fabiano/LaPresse/DiaEsportivo/Folhapress
Quer exemplos dessa violência simbólica? Vou citar alguns: a violência do chefe que humilha em público. O sarcasmo de um adulto que desmerece a autonomia de uma criança. O professor que apaga o brilho de um aluno. Ou ainda o comentário perverso na mesa de jantar que sentencia o destino de um filho ou a crítica venenosa provocada pela inveja.
E há ainda a bajulação, a prima-irmã da crueldade, embora use roupas de seda. A palavra que lisonjeia sem sinceridade não eleva o outro, apenas o instrumentaliza. Transforma o ser humano em meio para um fim, nega-lhe a dignidade de ser visto como é, e instala entre os dois uma relação fundada na mentira. Do ponto de vista psicanalítico, o adulador projeta sobre o outro uma imagem fabricada, não por amor, mas por necessidade. Do ponto de vista cristão, o pecado é duplo: mente ao próximo e desonra a Deus, que criou aquele ser para ser amado na verdade, com e de verdade.
O papa chama a atenção para uma forma de jejum pouco apreciada. A renúncia às palavras que atingem e ferem o próximo não é uma prática fácil. Não basta abster-se do pão e continuar a devorar reputações. Não basta jejuar de carne, se alimentamos o ódio com comentários afiados, julgamentos temerários, calúnias disfarçadas de preocupação. A boca também precisa de quaresma.
"Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso é que o torna impuro", foram as palavras de Cristo ( Se você conhece pela música do Pepeu Gomes, também vale). E no Sermão da Montanha, foi além: equiparou a palavra de ódio ao assassinato. "Quem disser a seu irmão: 'Idiota!' estará sujeito ao tribunal." Para Jesus, insultar é matar de outro jeito. Talvez matar a dignidade, matar a esperança, matar o vínculo que deveria unir todos os filhos do mesmo Pai, que é o que somos, se cristãos.
Na era das redes sociais, a palavra foi acelerada ao ponto de perder peso, mas ao mesmo tempo ganhou mais letalidade. Um comentário digitado em segundos pode destruir uma carreira, uma família, uma vida. O anonimato que a tela oferece removeu o freio da empatia. A distância digital produziu uma desumanização da palavra que teria horrorizado qualquer mestre espiritual de qualquer tradição.
Afinal, quem é Cristo para uma sociedade que só valoriza a autopromoção e o discurso performático? Toda a sua pedagogia era uma aula de economia da linguagem e de falar apenas o que tem o peso do amor.
O Papa Leão XIV não propõe para a quaresma o silêncio da ausência. Ele propõe escuta. Calar para ouvir. Evitar a produção de ruído nas relações com palavras que não elevam. Não é o silêncio da indiferença, mas o silêncio que permite ao outro emergir, se dizer, falar, ser.
A escuta verdadeira é um ato de humildade, porque exige que eu suspenda minha pressa de responder, minha necessidade de ter razão, meu impulso de preencher o vazio com a minha própria voz. Exige que eu reconheça que o outro existe fora de mim e que essa existência merece atenção plena. É um exercício espiritual, ético e, pela via da comunicação, técnico.
A palavra mais poderosa é a que une. Não é a que destrói, mas a que levanta. Vou deixar você, caro leitor, com mais um trechinho de "Detox". Que seja para todos nós uma quaresma transformadora.
Silencie o mal com força, fé, coragem e esperança, para que um dia suas palavras contribuam mais com o mundo do que o seu silêncio. Silencie na alma os diálogos enfermos. Palavras não ditas também gritam.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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