Em meio às discussões sobre a possibilidade de o país precisar fazer racionamento de energia ou mesmo correr o risco de sofrer com um apagão, em função da pior crise hídrica das últimas nove décadas registrada em vários Estados brasileiros, há quem avalie que o momento pode servir também para intensificar discussões sobre a diversificação da matriz energética e para desenvolver novos projetos.
A coluna conversou com o especialista do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Romeu Rodrigues, sobre o cenário pelo qual atravessamos. Para ele, é possível transformar esse desafio em esforços em prol do incentivo a novos empreendimentos no setor.
"Temos neste momento que encarar a crise hídrica e energética como uma oportunidade para acelerarmos investimentos. Trazer para o Espírito Santo e desenvolver aqui projetos com novas fontes de energia, fontes mais confiáveis"
Rodrigues cita o potencial que o Estado tem em relação ao gás natural, e frisa que estimular projetos de térmicas a gás é um caminho para aumentar a segurança energética.
"O ES é um importador líquido de energia elétrica, e se a gente pudesse aproveitar o gás produzido aqui [nos campos offshore] e a era da nova lei do gás, a gente poderia ter mais opções por meio de térmicas a gás. A gente sabe que a térmica não é fonte mais limpa, mas é um caminho de transição."
Ele considera que o Estado tem condições de ser autossuficiente na produção de energia, para isso, seria necessário fazer um balanço de diferentes fontes. Além das térmicas a gás, o especialista cita que o Espírito Santo tem capacidade para tirar do papel projetos de energia solar e eólica.
Rodrigues reconhece que o território capixaba não é o lugar com o maior potencial em termos de insolação e ventos na comparação com outros Estados do Brasil, mas pondera que comparado à Europa, onde essas fontes já são bem difundidas, o Estado tem capacidade similar de produzir energia solar e eólica, inclusive a eólica offshore.
"O governo do Estado tem feito um bom trabalho no sentido de incentivar as energias renováveis, mas precisamos intensificar as ações para tentar atrair novos investimentos nessas áreas. Temos que correr um pouco mais atrás dessas oportunidades, afinal, o mercado tem interesse e precisamos fazer a aproximação com os players."
Entre os projetos que já foram tornados públicos e que corroboram com a fala do representante da Findes estão as térmicas a gás que investidores como do Porto Central e da Imetame já demonstraram interesse em viabilizar.
Outro negócio é o desenvolvimento de parques eólicos no mar. Como a coluna noticiou em setembro do ano passado, a empresa Votu Winds, com sede no Rio de Janeiro, e a multinacional norueguesa Equinor estão interessadas em projetos com esse perfil no Litoral Sul capixaba.
A Equinor, por exemplo, tem em seus planos construir dois parques eólicos entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, de 2 gigawatts (GW) cada, por meio dos projetos Aracatu I e Aracatu II, que juntos terão uma potência instalada capaz de abastecer o equivalente a 2 milhões de casas.
O primeiro pretende escoar a energia por meio de cabos para uma subestação no município de Campos dos Goytacazes, no Norte fluminense, já o segundo prevê o escoamento para a cidade de Itapemirim, no Sul capixaba. Os parques, que se aprovados terão juntos 320 aerogeradores, deverão ficar a cerca de 20 quilômetros da costa.
MUDAR HORÁRIO DE PRODUÇÃO NÃO É TAREFA SIMPLES
Enquanto a diversificação energética não acontece e o país convive com uma possível instabilidade do sistema nos próximos meses, a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) afirma que vem fazendo um trabalho de orientação e conscientização junto às empresas.
Segundo o especialista do Conselho de Infraestrutura da entidade, Romeu Rodrigues, a indústria trabalha há bastante tempo com o objetivo de reduzir os custos, e a federação realiza campanhas frequentes em prol da eficiência energética, orientando, por exemplo, sobre a importância de modernizar equipamentos.
Questionado se as indústrias do Estado devem mudar horários de produção para atender ao pedido do governo federal, deslocando o uso de energia para horários menos disputados, Romeu Rodrigues disse que essa é uma situação que deverá ser avaliada por cada companhia, mas ponderou que essa adequação não é simples de acontecer.
"A indústria já trabalha fortemente a eficiência energética. O horário de ponta já é caro [mesmo em condições normais], então, as empresas já fazem o possível e o impossível para reduzir o uso nesse período. Por isso, é muito difícil adicionar esforços extras para deixar de operar em determinado horário. Além disso, tem todo um planejamento e uma rotina, que não são simples de serem mudados da noite para o dia", destacou.