O fechamento de fábricas e a demissão de centenas de funcionários de várias unidades da Fertilizantes Heringer no país trouxeram à tona a grave crise financeira que a empresa vem enfrentando nos últimos anos, especialmente de 2018 para cá.
A companhia, que tem sua sede em Viana e está entre as maiores do ramo no Brasil, fez nesta quinta-feira (31) um comunicado interno informando sobre o início de um “profundo processo de reestruturação dos seus negócios”. No e-mail, o qual a coluna teve acesso e publicou o teor do seu conteúdo em primeira mão no Gazeta Online, a empresa diz que a decisão foi necessária em função de ter tido suas contas bloqueadas e não ter recursos sequer para pagar os salários de parte dos funcionários.
Mas, apesar de ser uma companhia de capital aberto na Bolsa de Valores, até o fechamento desta edição, a Heringer ainda não havia feito comunicado ao mercado sobre as mudanças. A única declaração foi sobre o pedido de renúncia de dois diretores, um da área financeira e outro da de suprimentos e logística, o que reforça o momento delicado vivido pela organização.
Por enquanto, segundo contou uma fonte da própria empresa à coluna, a interrupção das atividades de algumas plantas e o desligamento de profissionais não impactaram o Espírito Santo. Mas, sem dúvida, as incertezas que rondam a companhia têm deixado empregados – no Estado são cerca de 200 –, fornecedores e clientes locais receosos com o futuro da empresa, que é atualmente a quinta maior em faturamento no Espírito Santo.
Com uma receita em 2017 de R$ 4,86 bilhões, de acordo o ranking do IEL “200 Maiores Empresas do Espírito Santo”, ela fica atrás somente de outras gigantes: Petrobras, Vale, ArcelorMittal e EDP. Dados que reforçam a importância dessa indústria na economia capixaba.
A situação que a Heringer enfrenta é, na visão de analistas, uma soma de fatores que vêm sendo combinados ao longo dos últimos anos. “Mesmo com ações na Bolsa, a companhia está longe de ser um exemplo de gestão. De controle familiar, ela não é uma referência nos processos de governança, sem contar que as decisões são muito centralizadas”, avalia uma fonte.
Outro fator é o grande volume de investimentos que fizeram nos últimos anos em novas fábricas e não conseguiram obter o retorno no curto prazo. Além disso, ela sofreu com a desvalorização do real frente ao dólar, já que muitos dos seus insumos são importados.
Também é visto como um agravante para os resultados ruins da empresa a atuação agressiva que tem no mercado, praticando preços muito vezes bem abaixo do que os da concorrência. “Eles sempre foram muito agressivos, ditando os preços para baixo. São capazes de vender com prejuízo para ganhar ou não perder uma fatia do mercado. O negócio deles é ter volume com baixa rentabilidade e a qualquer custo. Mas uma hora isso fica insustentável”, afirma um executivo do setor.
Uma outra pessoa da área resume a situação da Heringer: “Faturamento gigante, endividamento monstro e margem microscópica.”
As dívidas da empresa realmente a colocaram em uma situação de alta alavancagem. De acordo com dados do 3º trimestre de 2018, a dívida líquida da Heringer ficou em R$ 1,07 bilhão. Não à toa, salários e pagamentos de fornecedores estão atrasados em várias regiões do país.
Para especialistas, diante da falta de recursos para honrar os débitos de curto prazo, a empresa não tem muitas saídas. “Ou ela passa por um processo de turnaround (reestruturação) ou ela pode entrar em recuperação judicial”, observa um consultor.
Pelo o que tudo indica, as mudanças iniciadas nesta quinta-feira tratam-se dessa reestruturação. Mas há ainda quem veja como melhor alternativa a venda da companhia. Aliás, essa possibilidade vem sendo bastante especulada no mercado desde o ano passado. Notícias sobre uma possível venda da empresa para estrangeiras fizeram com que as ações subissem. Pelo gráfico acima é possível ver que em meados de 2018 os papéis dispararam, chegando a R$ 9,16, mais do que o dobro da cotação desta quinta, R$ 3,96.
A concretização da venda não chegou a acontecer, mas o assunto continua sendo tratado pelo mercado. Tanto é que um relatório do Itaú de dezembro de 2018 cita que a Nutrien assim como outras companhias do setor têm fortes incentivos para adquirir a Heringer. Dessa forma, elas ganhariam capilaridade de distribuição, um dos pontos fortes da Heringer.
O documento, que diz que a indústria de fertilizantes perdeu sua capacidade de competir depois de enfrentar uma alta alavancagem, traz ainda outros números, como a queda do volume de vendas da Heringer em cerca de 50% nos últimos anos e uma redução na participação no mercado de 17,5% para 8,3% em 2018.
As decisões que a empresa vai tomar ainda são pouco transparentes e imprecisas para o público externo, mas a expectativa é que a reestruturação traga medidas efetivas e aconteçam logo, de modo a reverter o quadro atual. Do contrário, os prejuízos não só para a companhia, como para a economia nacional e local serão grandes.