Não é que eu não deseje escrever sobre literatura. Mas, por mais que a gente queira, é impossível deixar de retomar o assunto do coronavírus. É como se fosse um daqueles tempos em que a população do planeta cantava uma canção que falava da guerra, de como a guerra atinge o coração, enche de terra a boca e deixa centenas de esqueletos pendurados nas cercas de arame farpado. Você está lá, sentada diante do computador, acabou de ler um romance e pretende comentar como é bem arquitetado, cheio da melhor intuição etc.
Aí vê que a tevê também acabou de atualizar o número de infectados e mortos pela pandemia. Pronto. O assunto do coronavírus tomou conta da sua mente e afastou as suas veleidades literárias de apreciação.
Você pensa que também deveriam dar o número daqueles que enfrentaram a doença e ficaram curados. Seria, pelo menos, um sopro de esperança. Aliás, a esperança nem parece mais a fadinha verde de antes. A coitada anda a se arrastar por aí, com asas esfarrapadas. De repente, crianças, moços e velhos começaram a temer as coisinhas maléficas, mais que diminutas, que desaparecem aos olhos e aparecem sob as lentes potentes de um microscópio, trincando de terror o vidro da alma, enchendo o mundo todo de medo. “Não têm sequer tripas decentes. Não sabem o que é sexo, infância, velhice.
Talvez nem saibam se são ou se não são. No entanto decidem sobre nossa vida e morte”. Em 2009, Wislawa Szymborskca escreveu esses versos. É como se uma profetisa vislumbrasse o que ia ocorrer onze anos depois.
E o que diria a poeta se soubesse que a vida e a morte das flores estão sendo decididas pelo Covid19 agora? Acabaram-se as festas e as comemorações e até mesmo desapareceram as coroas floridas sobre os caixões dos mortos. Como consequência, 140 milhões de tulipas foram exterminadas pelos produtores de Amsterdã, pois não havia compradores para elas.
E pensar que, no início do século XVII, foi um vírus que atacou as tulipas, deixando-as mais frágeis, tornando-as, porém, tão bonitas e tão desejadas a ponto de sua compra e venda causar intenso comércio e imensa riqueza na Holanda.
Você imagina que a humanidade, antes tão convicta do poder da civilização sobre a natureza, está levando um choque mortal de impotência diante do perigo que ameaça a existência na Terra. Seria a chegada de algum tipo de apocalipse? Então não tem jeito.
Você deixa para outra ocasião a crítica ao romance e começa a escrever sobre o coronavírus. Meio assim sem saber o que dizer nesse mar de notícias.