Houve um tempo, em uma galáxia bem próxima de nós, ou melhor, em nossa própria galáxia, um sábio senhor vestido de palhaço dizia em uma mídia de reinado já um tanto duvidoso: “Quem não se comunica se trumbica”. De lá para cá, o termo “comunicação” vem passando por poucas e boas. Vocês, francamente, consideram um modo de comunicação a imensa exposição pessoal nas redes sociais, sob a forma de mensagens, vídeos e fotos?
Eu devia ser prudente e saber que posso estar entrando numa fria com os especialistas no assunto. Afinal, nada mais sou que uma escriba de histórias. Histórias são aquilo que invento e me dá contentamento, para parodiar a divina Cecília Meireles. Mas vou arriscar assim mesmo.
A mim me parece que o século XXI tem, nas redes sociais, uma espécie de avatar dos sofás de psicanalistas, imprescindíveis e obrigatórios às neuras do século XX. Senão, vejamos: as pessoas entraram em uma condição extrema e frenética de exibição de si mesmas e do seu entorno mais íntimo: filhos, netos, pais, avós, gatos, cães, amizade com gente famosa ou quase famosa, comidas, bebidas, viagens, visitas a cidades estrangeiras, casamentos, registros necrológicos e muito mais. Talvez porque as sociedades vivem uma fase exacerbada de supervalorização do “eu”. O que explicaria, inclusive, a necessidade que tanta gente tem de publicar um livro, no desejo de se tornar um escritor literário.
Em tais circunstâncias, os grupos virtuais, tais como Facebook, Instagram, Tik Tok e quejandos, se transformam no paraíso da exposição pessoal. É onde tudo se torna possível. Onde se realizam as fantasias. Onde se autoafirma aquilo que cada um pensa que é ou que gostaria de ser.
O mais importante é que tudo acontece no tempo presente e urgente. Os comentários e as curtidas são imediatos. E, quanto mais aparecem, mais satisfazem. A falta deles não raro provoca sensação de fracasso. O dono do post se sente esquecido, preso no purgatório. “Ninguém me ama, ninguém me quer”, canta a alma da pobre criatura, à espera de que os amigos internautas a retirem do limbo e a conduzam, pelo menos, ao céu dos emojis.
Quando essa esperança é concretizada, triunfa a vontade de compartilhar. Não importa que ronde o perigo da vulnerabilidade dos dados ou de agressões vindas de anônimos mordidos pelo dente da serpente da inveja ou da competição. Uma onda de emoção reconfortante e caseira toma conta dos sentimentos que, outrora, antes da ascensão da internet, estavam reservados a emoções humanas bem mais duradouras e imarcescíveis.