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Cinema

O cansaço do gênio: o que terá provocado a exaustão de Godard?

O Ocidente está se tornando uma sociedade do cansaço. Uma sociedade que cobra por resultados e produtividade sem dar trégua a seus componentes

Publicado em 27 de Setembro de 2022 às 00:05

Públicado em 

27 set 2022 às 00:05
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

blyra@uol.com.br

Jean Luc-Godard, cineasta franco-suíço
Jean Luc-Godard, cineasta franco-suíço Crédito: Reprodução
Neste estranho setembro, uma notícia atravessou o horizonte do cinema como um arco de escuridão: a morte de Jean Luc Godard. O cineasta praticou um “suicídio assistido”. Não é coisa a que a gente esteja acostumada aqui, mas é permitido na Suíça, onde ele morava.
Godard virou de cabeça para baixo a maneira de filmar, a partir dos anos 60. Trazia para a tela as fábulas que envolvem a vida e os costumes das criaturas. E fazia isso de modo todo especial, transtornando as regras da filmografia. Seus filmes jogam um olhar crítico de suspeição sobre a cantilena da civilização no Ocidente, ao mesmo tempo em que desmontam as receitas de um tipo de cartilha estandartizada, como a que rege a maioria dos filmes hollywoodianos.
Assim, prestou inestimável contribuição à cinematografia criativa, desde o primeiro e inovador “A bout de souffle (Acossado, 1960)” até o último, o caótico e perturbador mix de “Imagem e palavra” (2018).
No rastro da comoção provocada pela notícia da morte tão inesperada do realizador, uma frase pesou como uma pedra: "Ele não estava doente, estava simplesmente exausto”. A gente não pode ignorar o papel de vilã da exaustão, lendo essas palavras. É ela que mata Godard, e não uma doença.
A frase citada não explica o tipo de exaustão que levou o cineasta a escolher morrer naquela data. Seria apenas por sentir o peso de envelhecer? Nesse quesito, ninguém melhor para citar que Byung-Chul Han. O Ocidente está se tornando uma sociedade do cansaço, diz o filósofo coreano. Uma sociedade que cobra por resultados e produtividade sem dar trégua a seus componentes.
Segundo Han, o excesso de trabalho e a ansiedade de desempenho colocam os indivíduos em uma posição de autoexploração, permeada de angústia, medo e pressão. As pessoas se acham na obrigação de mostrar aos outros que são produtivas, inteligentes, bonitas e outras qualidades que julgam trazer admiração e status, seja na vida pessoal, seja na social. Por outro lado, o desempenho, para ser bem considerado, faz valer a pressão sobre a necessidade de produzir e multiplicar os bens de consumo.
“É mais fácil repousar um corpo dolorido do que acalmar uma alma exausta”, diz Marcel Camargo, autor conhecido pelos textos de aconselhamento. Pode parecer papinho de autoajuda, mas a verdade é que a alma, ou melhor, o estado íntimo das pessoas está cada vez mais em crise de esgotamento.
Jean Luc Godard, o gênio da luz e da imagem em movimento, era humano, demasiadamente humano. Teria ele sido vítima desse cansaço - exterior e interior a um só tempo - que adoece a humanidade no século XXI?

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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