Volta e meia, me vem à cabeça a lembrança de que chegamos a um tempo hiperbólico. Vivemos uma época em que o excesso é a tônica. Faz parte das tretas do capitalismo, esse monstro de duas faces, que rege as culturas de hoje. Dele, nem mesmo as artes escapam. Haja vista o que anda acontecendo com a produção literária.
Atualmente, milhares de livros são escritos e publicados. De modo concomitante, acontece uma enxurrada de manhãs, tardes e noites de autógrafos; feiras e festivais literários; cerimônias de entrega de medalhas comemorativas e demais eventos que combinam lances culturais com interesses políticos, midiáticos e turísticos, em cidades grandes e pequenas. Paradoxalmente, o número de leitores diminui. O Brasil, por exemplo, perde leitores a cada ano e o número de gente que lê é insignificante, segundo os dados estatísticos.
Em seu livro “O show do eu; a intimidade como espetáculo”, a professora Paula Sibila revela um curioso acontecimento. Em uma pesquisa feita entre os frequentadores da concorrida Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, ficou comprovado que, naquela multidão de visitantes, centenas e centenas de pessoas compravam os livros, mas não para lê-los ou por interesse por seu conteúdo. Queriam apenas “ver” de perto “escritoras” e “escritores” (algumas e alguns conhecidos por aparecerem em programas de televisão) e armazenar seus autógrafos, como caçadores armazenam troféus de cabeças de bichos. Sem falar que muitos dos frequentadores declararam que “jamais tinham lido um livro sequer”.
Outro professor, Sávio Lopes, exímio leitor, pesquisador e crítico, escreveu em sua página no Facebook esta frase que, sem sombra de dúvidas, é uma das melhores, mais irônicas e mais bem-humoradas sobre esse assunto: “Chegará o dia em que haverá um prêmio para cada livro lançado. E uma feira e uma Bienal para cada escritor oferecendo oficina de escrita criativa. E, neste dia, todos seremos escritores - sem leitores, é claro”.
O fenômeno é mais que instigante e, por certo, interessa a quem acompanha a saga da literatura. “Hoje, ser escritor é um ato de exibição”, reclama o romancista argentino Pablo de Santis, em entrevista ao jornal La Nación. A imensa trilha de escritoras e escritores (que só faz aumentar) serve bem à crise de visibilidade provocada pelo que pode ser chamado de “a sociedade do excesso” (na esteira de pensadores como Byung-Chul Han e Zygmund Bauman). Uma crise posta a serviço da engorda dessa verdadeira fábrica de exposições pessoais em que se transformou parte da produção literária de agora.