O Instituto Patrícia Galvão publicou nesta semana uma pesquisa inovadora no Brasil, na qual revela as percepções sobre controle, assédio e violência doméstica: vivências e práticas. A pesquisa traz dados importantíssimos para entendermos a relação das pessoas em face da violência.
Um dado da pesquisa chama atenção desde o início: 45% das mulheres brasileiras dizem já terem tido seu corpo tocado sem seu consentimento em local público, sendo que apenas 5% dos homens admitem ter feito isso. Esse dado revela que o homem brasileiro não só não percebe a sua conduta como violenta, como também entende ser ela uma conduta normal. Ou seja, a mulher sofre verdadeiro assédio, e o homem entende que está simplesmente cumprindo o que a sociedade entende ser o papel dele.
Essa forma de enxergar a violência contra a mulher é uma das condutas masculinas que revelam que o sistema patriarcal no Brasil permeia todas as estruturas públicas e privadas da nossa sociedade. O patriarcalismo autoriza não só a conduta assediadora, como também a normaliza.
A pesquisa do Instituto Patrícia Galvão traz outros dados relevantes além desse primeiro, ela demonstra, por exemplo, que 41% das mulheres já foram xingadas ou agredidas por dizerem não a uma pessoa que estava interessada nela; 32% passaram por situação de importunação/assédio sexual no transporte público; e 31% sofreram tentativa ou abuso sexual.
Esses números não podem ser simplesmente aceitos em nossa sociedade. É preciso nos debruçarmos sobre eles e procurarmos melhorar as políticas públicas para a defesa do que é ser mulher em nossa sociedade, sociedade esta que sofre da patologia do patriarcalismo que corrói todas as nossas estruturas e instituições.
Pretender criar políticas públicas que transformem a forma de pensar uma sociedade deve passar pela modificação dos currículos escolares, onde devem estar os conceitos dos mais diversos tipos de violência praticadas contra as mulheres. Não só a Lei Maria da Penha, mas também a Lei da Importunação Sexual (Lei 13.718/2018), a Lei Carolina Dieckmann (Lei 12.737/2012), e principalmente, a nossa Constituição Federal devem ir à escola, para serem incorporadas ao nosso modo de vida desde a infância.
Além disso, é preciso que nestas eleições gerais as mulheres indaguem aos seus candidatos sobre as políticas públicas para as mulheres que serão feitas em seus mandatos. Um olhar diferenciado para essa temática deve fazer a diferença na hora de cada uma das mulheres deste país exercer o seu direito de voto.
Para mudarmos como nação é preciso, ainda, que o tema seja problematizado e debatido em todas as esferas da sociedade. Só assim as condutas dos agressores passarão da normalidade para a patologia social. O patriarcalismo que reina entre nós desde a colonização do país deve cair por terra a fim de construirmos uma sociedade mais justa.