Muitas vezes ouvimos falar que “o racismo mata”, mas não nos debruçamos efetivamente sobre os sentidos diferentes que essa frase tem. De um lado, o racismo mata, pois a sua prática vem acoplada a políticas de extermínio com consequências que vivenciamos nos nossos dias. É esse o racismo, portanto, que matou os negros escravizados nas plantações de cana-de-açúcar no Brasil, e também é o racismo que matou George Floyd nos Estados Unidos em 2020.
De outro lado, o racismo mata porque adoece e faz sofrer de forma indizível aqueles que o sentem no seu dia a dia. Poucas pessoas não negras param para refletir o que sentem as pessoas negras em nossas sociedades todas as vezes que são alvo de práticas racistas no seu cotidiano. A vida de uma pessoa negra é, desde a sua infância, marcada por atos de racismo que a circundam e seguem com ela a vida inteira.
Algumas pesquisas recentemente divulgadas nos Estados Unidos informam que pessoas negras adoecem e morrem mais cedo do que as brancas em decorrência do sofrimento que o racismo diário lhes causa. Uma reportagem do jornal alemão "Tageszeitung" de 05/07/2021 revela que essas pesquisas mostram que mulheres negras sofrem de doenças psíquicas com maior frequência. Dentre elas o índice de doenças como bulimia e Burnout é maior entre as negras do que entre as não-negras.
Além disso, outra pesquisa narrada por Elizabeth Blackburn em um TedX mostra que pessoas que sentem o racismo contra si mesmas envelhecem mais rápido, porque as suas células se modificam em decorrência do sofrimento causado pelo estresse extremo decorrente do racismo cotidiano.
A pandemia da Covid-19 também deixou bem claro, em especial no Brasil, que as pessoas que mais morrem por conta da doença são pessoas negras, ao passo que as pessoas não negras, mesmo tendo contraído o vírus, mostraram ter mais acesso aos equipamentos de saúde e, portanto, mais chances de um tratamento eficaz para a doença.
Mas voltemos ao ponto do adoecimento decorrente de situações de racismo. O racismo permeia a vida do povo brasileiro desde a sua fundação, o conceito de raça como ponto de diferença entre uma pessoa e outra já estava presente no momento em que os primeiros europeus tiveram contato com os povos tradicionais que habitavam as Américas.
A justificação do racismo foi um dos grandes temas dos escritos de cientistas europeus, que de tudo fizeram para justificar a escravidão. Quantas páginas e quanto tempo de estudo não foram dedicadas por Kant e Hegel para justificar a escravização dos povos africanos, justificativa essa que se baseou justamente no conceito de raça e num cientificismo que escalonava as raças entre as superiores e as inferiores, estas últimas destinadas ao cativeiro e ao trabalho forçado.
Até Karl Marx em seus escritos, ao falar do trabalho insalubre nas indústrias nascentes, equiparando as condições do trabalho assalariado dos fins do século XVIII e as do século XIX com a escravidão, nomeia o trabalho nas fábricas como escravidão de fato, mas deixa de analisar a questão da verdadeira escravidão dos negros africanos que ocorria naquele mesmo momento nas colônias europeias nas Américas.
O racismo permeou toda a construção das sociedades modernas passando de um continente ao outro, tendo como alvo sempre as mesmas pessoas, as que diferiam do padrão branco europeu considerado superior. Essa lógica permanece até os nossos dias, por vezes ela é menos ostensiva, por outras ela é tão ostensiva a ponto de ser declarada política pública, como as políticas públicas de exclusão e extermínio.
Importante, além disso tudo, é considerar que se o racismo matou milhares de negros por anos a fio, ele continua matando através do adoecimento de pessoas negras nas sociedades contemporâneas que sofrem com o preconceito todos os dias de suas vidas. Os sentimentos de humilhação, de exclusão, de invisibilização constantes causam um estado de sofrimento permanente naquelas pessoas que têm que conviver com isso desde tenra infância e sabem que terão que conviver pelo restante dos seus dias.