O novo filme da Netflix “Quanto vale?” trata, a princípio, dos atentados ocorridos nos Estados Unidos no dia 11 de setembro de 2001. A pergunta que dá título ao filme remete a uma pergunta retórica feita pelo protagonista (interpretado por Michael Keaton), logo em uma das primeiras cenas do filme: quanto vale uma vida?
O protagonista, um advogado e professor de Direito, complementa logo em seguida: no Direito temos, sim, resposta para essa questão. Se estivéssemos numa aula de filosofia vocês poderiam dizer que a questão não deveria nem ter sido feita.
Talvez o filme esteja fazendo referência ao livro e às aulas de Michael Sandel, professor de filosofia do direito da Universidade de Harvard, também nos Estados Unidos. No curso e no livro intitulados “Justiça: o que é fazer a coisa certa?”, que ficaram famosos mudialmente, Sandel pergunta aos seus alunos se é possível quantificar a vida humana.
Ele traz alguns exemplos de empresas norte-americanas, que para calcular perdas e danos por não fazer o recall de um produto, ou por não alertar os consumidores sobre os riscos à saúde decorrentes de seus produtos, utilizam de cálculos estuários específicos, quantificado a vida por idade, por profissão etc. A intenção de Sandel no livro é de demonstrar, filosoficamente, a imoralidade de qualquer cálculo nesse sentido.
Ao final do filme, nos últimos quinze minutos, o protagonista chega justamente a essa mesma conclusão, é impossível calcular o valor de uma vida; e mais, é imoral tentar fazer qualquer cálculo sobre quanto vale a vida humana. Isso porque cada ser humano é insubstituível, a dor que sua ausência faz na vida de sua família, de seus amigos de seus amores é uma dor que não passa nunca, que não pode ser esquecida nem com todo dinheiro do mundo.
Eventual reparação por perdas e danos decorrentes da morte ou grave adoecimento de uma pessoa não pode nunca ter o efeito de pagar pela vida perdida, substituindo aquele que se foi. A vida humana não tem valor, toda a tentativa que o professor interpretado por Keaton faz para calcular o valor da indenização a ser paga para as vítimas do 11 de setembro acaba se frustrando.
O simples ato de calcular ou propor uma fórmula, como é feito no filme, vai revelando tamanha insensibilidade com a dor humana que nenhum dos advogados que trabalham com ele – e o personagem de Keaton também – acreditam mais na moralidade do cálculo da vida humana.
Mais ainda: calcular o valor da vida humana, como bem demonstrado no filme, acaba levando invariavelmente a situações de injustiça. As pessoas que perderam seus entes queridos não se viam contempladas com a oferta monetária feita pelo governo norte-americano, pois ninguém concordava com o cálculo e o valor atribuído à vida daquele ser amado. Todo número a eles apresentado era visto como injusto. Afinal, eram pais, mães, irmãos, filhos, companheiros, maridos, esposas de pessoas de sangue e osso que tiveram suas vidas interrompidas brutalmente pelos ataques terroristas.
A vida humana não tem preço, o simples fato de tentar calcular o seu valor já é imoral e viola a dignidade humana intrínseca a cada ser. Ao pretender colocar uma etiqueta de preço numa pessoa, estaríamos nos aproximando dos senhores de escravos nas Américas, que vendiam e trocavam seres humanos como se fossem coisas, atribuindo aos negros sequestrados de África um preço arbitrado ali na hora da venda.
Ou ainda estaríamos também nos aproximaríamos dos nazistas e seus experimentos grotescos nos campos de concentração, onde a vida humana valia menos do que a diversão dos soldados nazistas, o ódio dos oficiais da Gestapo ou os resultados científicos experimentados naqueles corpos judeus.
Por onde olharmos, toda vez que alguém tentou atribuir um valor à vida humana foi um sinal de que a humanidade descambava para a barbárie. Todo cuidado é pouco!