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Mulheres

Comentários machistas sobre ucranianas não são novidade para o homem brasileiro

Fiquei sabendo por amigos que têm circulado nos grupinhos de homens no WhatsApp muitas outras fotos de mulheres ucranianas refugiadas com dizeres do tipo “vem refugiada que eu te recebo aqui em casa”

Publicado em 09 de Março de 2022 às 02:00

Públicado em 

09 mar 2022 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

brunelavincenzi@hotmail.com

Ontem, 8 de março de 2022, celebramos mais um Dia Internacional da Mulher. Neste ano, especialmente, passamos a data aqui no Brasil nos lembrando das falas misóginas do deputado estadual em São Paulo, Arthur do Val, e do deputado federal pelo Espírito Santo, Neucimar Fraga. Sentimos neste dia 8 o que é estar em guerra mesmo sendo ela distante, pois a dor das mulheres ucranianas nos toca a todas.
Haveria tanto a ser dito e feito ainda neste Dia Internacional da Mulher, neste mês da mulher, como gostam de chamar, mas é importante que falemos sobre os áudios dos dois deputados brasileiros, pois a questão é premente e não pode ser normalizada por nossa sociedade. De pensamentos como os externados nos dois áudios de WhatsApp decorre todo o ciclo de violência que mata nossas mulheres brasileiras há anos.
A questão tem muitas ramificações, vou elencar aqui as que mais me preocupam. De início, podemos observar tanto na manifestação de Neucimar Fraga quanto de Arthur do Val um padrão muito comum entre os homens brasileiros, que é de se referir a mulheres como objetos. O segundo problema está no fato de os dois políticos identificarem claramente a beleza feminina à branquitude da pele, aos cabelos loiros e aos olhos claros, o que demonstra o racismo do homem brasileiro em relação às mulheres negras e pardas, que formam a maioria do grupo habitacional de mulheres brasileiras. O terceiro problema está em banalizar a situação de guerra, que é per se um ato de violência, onde mulheres normalmente não são soldados e sim armas de guerra: são estupradas pelos agressores como revanche ou retaliação ao inimigo.
No caso do deputado estadual por São Paulo, há um quarto problema que é menosprezar por completo a situação de dor que as pessoas refugiadas vivem. Os seus comentários no áudio simplesmente desconsideram o fato de estarem fugindo da guerra, com filhos e idosos, deixando uma vida toda para trás.
Infelizmente, tanto um comentário como outro não são novidades para o homem brasileiro, ouso dizer que se trata de um pensamento corriqueiro que se não é externado, passa certamente pela cabeça de muitos. Fiquei sabendo, até por amigos, que têm circulado nos grupinhos de homens no WhatsApp muitas outras fotos de mulheres ucranianas refugiadas com dizeres do tipo “vem refugiada que eu te recebo aqui em casa”.
Bom, já que é assim, gostaria de informar aos senhores dos grupinhos de WhatsApp que eles já podem começar por se conscientizar que existem milhares de migrantes forçados no mundo hoje em dia, nem todas são mulheres e nem todas brancas e loiras. Muitos refugiados estão aqui no Brasil e no Espírito Santo. Impressiona o fato de há alguns anos já estarmos apontado para a necessidade de abrigos para refugiados aqui no Estado e nunca recebemos qualquer atenção por parte da maioria da população capixaba.
Durante todo o primeiro semestre do ano passado (2021), esta coluna e a Rede de Apoio aos Migrantes e Refugiados do Espírito Santo passamos pedindo ajuda para a construção de abrigo para refugiados venezuelanos indígenas da etnia Warao, entre eles cerca de 20 crianças que estavam vivendo nas ruas de Vila Velha. Algumas pessoas da sociedade civil e de igrejas da região nos ajudaram, mas autoridades do executivo municipal e estadual nem sequer foram visitar o grupo, para dar a eles uma palavra de apoio.
Ora, se a imagem de crianças waraos nas ruas de Vila Velha, clamando por abrigo e alimento, não comoveu a maioria das pessoas, que se veem agora – em especial os homens brasileiros – comovidos pelas fotos de refugiadas ucranianas, a ponto de ofertar a sua casa para abrigo, temos que concluir que, de fato, há algo muito errado em nossa sociedade.
O patriarcalismo e o racismo estrutural que permeiam as instituições da sociedade brasileira são muito mais perversos do que a maioria das pessoas quer aceitar. Eles matam, e matam todos os dias, mas não matam os homens brancos, somente as mulheres, os negros, os indígenas, as pessoas vivendo em situação de rua, os refugiados, as pessoas trans, gays, lésbicas, bissexuais, queer, intersexo e outras.
Ao que tudo indica, nos grupinhos de WhatsApp a vida destas pessoas não tem valor, somente a das loiras ucranianas.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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