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Invasão ao Capitólio

Democracia é exercício de debates públicos e concessões recíprocas

Ao contrário do que pode parecer, a democracia não é a imposição da vontade absoluta da maioria sobre a minoria. A maioria tem que reconhecer o poder que tem e cuidar dos direitos das minorias

Publicado em 13 de Janeiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

13 jan 2021 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

brunelavincenzi@hotmail.com

Apoiadores do presidente dos EUA, Donald Trump, escalam paredes no Capitólio dos EUA durante um protesto contra a certificação dos resultados da eleição presidencial dos EUA de 2020 pelo Congresso dos EUA, em Washington, EUA, 6 de janeiro de 2021.
Apoiadores do presidente dos EUA, Donald Trump, escalam paredes no Capitólio dos EUA Crédito: REUTERS/Stephanie Keith/AP
Uma semana depois da invasão do Capitólio, sede do Congresso norte-americano, muitos ainda se perguntam como algo tão típico das republiquetas de bananas poderia acontecer nos Estados Unidos, onde a democracia é antiga e fortemente defendida.
Porém, o que para muitos não era claro, nem de seu conhecimento, é o fato de que, apesar do discurso que pretendia impor a democracia à força a outros países, nos EUA a realidade das práticas institucionais já dava indícios de diversas violações ao jogo democrático.
E, como vimos no dia 6, uma democracia não resiste a constantes injustiças, onde o rigor da lei serve apenas para punir os indesejados da sociedade. Como na frase famosa, a realidade que impõe “aos amigos tudo; aos inimigos a lei” já é fortíssimo indício de abuso de poder por um governante tirânico. Basta comparar o número de policiais que protegiam o Capitólio durante as manifestações do Black Lives Matter: lá a força da lei pesou sobre os manifestantes e organizadores.
Por outro lado, na manifestação do dia 6 conclamada pelo presidente Trump o número de policiais era muito inferior, apesar de ter ocorrido no mesmo local. E mais, os indícios de que a situação poderia esquentar eram claros e mesmo assim o reforço necessário da segurança do Congresso não foi feito.
Muito ainda há de ser apurado sobre a falha no esquema de segurança do Congresso americano no dia 6, mas existe um ponto importante que merece ser analisado desde já, a demonstração de fragilidade das democracias ocidentais.
De fato, desde a eleição de Donald Trump, em 2016, e posteriormente com a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, muitos cientistas políticos, diplomatas e políticos têm alertado sobre a facilidade com a qual o regime democrático de um dia para o outro pode se tornar uma tirania.
O exercício da democracia é um exercício de debates públicos e concessões recíprocas. Ao contrário do que pode parecer, a democracia não é a imposição da vontade absoluta da maioria sobre a minoria. A maioria tem que reconhecer o poder que tem e cuidar dos direitos das minorias.
Uma sociedade democrática tem que criar e fazer cumprir leis que são justas para todos. Como o caso dos Estados Unidos nos mostrou, a divisão de opiniões políticas vem causando uma luta egoísta entre políticas públicas que querem impor uma única forma de vida a todos.
Certamente, a visão mais progressista do partido de Biden é mais inclusiva do que a visão de mundo defendida por Trump e seus seguidores. Mas, mesmo assim, é importante que o Partido Democrata de Biden ouça e debata também com os republicanos seguidores de Trump.
O exercício da democracia requer tempo, mente aberta, debate público e escuta. Os defensores da democracia precisamos dar conta disso, caso contrário corremos o risco de ver em um futuro próximo um outro ataque ao Congresso seja nos EUA, seja em um país como o Brasil, onde a democracia desde 1986 ainda está dando seus primeiros passos.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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