A Guerra na Ucrânia, que se prolonga por mais tempo do que inicialmente alguns acreditavam que duraria, continua fazendo vítimas civis e militares. Porém, diferentemente do que se viu em outras guerras, essa se dá num outro ambiente midiático, onde tudo se transmite em tempo real para todos os cantos do planeta. Assim, mortes e bombardeios, que chocam a geração que conheceu os horrores da II Guerra Mundial e da Guerra Fria, para as gerações mais novas passaram a ser naturalizados.
O chanceler alemão, Olaf Scholz, em seu discurso no Parlamento Alemão no início da guerra chamou atenção para a mudança de paradigma que estava em curso, a relativa estabilidade do mundo em que se vivia antes não mais poderia ser mantida. A esperança cultivada, ao menos desde a Queda do Muro de Berlim, de que a paz seria um estado permanente na Europa e do outro lado do Atlântico Norte, não é mais um fato dado, certo.
A nova geração que cresceu ouvindo que a história não mais se repetiria, que o melhor caminho para a humanidade é a paz e a proteção de direitos humanos universais, valores ocidentais que deveriam se tornar um dia prioridade também em outras partes do mundo, tem agora que se dar conta de uma realidade completamente diferente: uma guerra nas bainhas da Europa.
Guerra essa, frise-se, que pode a qualquer momento escalar para uma guerra nuclear, já que a Rússia não descarta essa opção, caso os aliados da Otan ajam de modo que seja considerado como participação ativa no conflito. De acordo com o filósofo alemão, Jurgen Habermas, em artigo publicado no dia 29 de abril último, no jornal Süddeutsche Zeitung, essa expectativa normativa quanto à participação ou não dos aliados na guerra é também uma outra ingenuidade da nova geração, que acredita demais num sistema de direito internacional que como vimos não dá (ou deu) conta de impedir qualquer ato de Vladmir Putin até agora.
Para Habermas, somente as gerações que efetivamente vivenciaram o horror de estar sob a ameaça de uma guerra nuclear iminente poderia entender a cautela com que se impõe o agir estratégico dos aliados do Atlântico Norte agora. Em uma guerra nuclear, como nos relembra Habermas (que com 90 anos viveu os horrores da II Guerra e toda a Guerra Fria), não há ganhadores, a única alternativa é a negociação de um acordo de cessar-fogo.
Com a tática da deténte, usada como forma de impedir que uma potência usasse suas armas nucleares contra a outra, de um lado impedia-se o conflito efetivo – porque uma potência temia o uso da bomba pela outra, causando destruição recíproca – fazia, por outro lado, que a população de quase todos os países do mundo vivesse em constante estresse, com medo de que a guerra nuclear começasse a qualquer momento. E a humanidade, de fato, passou perto disso algumas vezes, como foi o caso da invasão da Baía dos Porcos em Cuba, pelos EUA, em 1961.
O fato, que ficou conhecido na história como a Crise dos Mísseis, como se sabe hoje passou muito perto de desencadear um conflito mundial nuclear, que se daria bem próximo de nós, no Brasil. O uso de armas nucleares é um ponto de inflexão na história da humanidade, uma vez lançadas em Hiroshima e Nagasaki não podem mais ser "deslançadas", fato que não se esquece, imagens que ecoam até hoje em nossas mentes, tamanho o temor que o cogumelo gigante formado pela explosão atômica nos traz.
Certo que se poderia dizer aqui que a invasão da Ucrânia por Putin é um ato de guerra que viola todas as regras de direito internacional, que ele deveria ser julgado pelo Tribunal de Haia, mas, ora, como nos lembra Habermas, para Putin o direito internacional não o obriga, tampouco o Tribunal Penal Internacional tem jurisdição para julgar seus atos. A normatividade moral ocidental não tem para ele qualquer valor. É preciso pensar e agir de outra forma, sem ideais morais, para superar essa crise, em nome e para o bem de toda humanidade.