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Século XXI

Quando começa o fim da história?

Nos 20 anos do 11 de Setembro,  o curso da história continua, sim, imprevisível. A história não só não parou, como segue um ir e vir constante, mudando a forma como as guerras são travadas, como as pessoas se comunicam e como elas se relacionam

Publicado em 08 de Setembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

08 set 2021 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

brunelavincenzi@hotmail.com

Momento em que avião bate numa das torres gêmeas, em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001
Momento em que avião bate em uma das torres gêmeas, em Nova York, em 11 de setembro de 2001 Crédito: Reprodução/YouTube
Em 1992, foi lançado o livro “O fim da história e o último homem” do filósofo Francis Fukuyama. O livro é uma versão expandida de um texto publicado pelo filósofo em 1989, pouco tempo antes da queda definitiva do Muro de Berlim, e consequentemente o que a história usualmente vê como o fim da Guerra Fria ou o fim do Bloco Soviético.
Baseando sua tese em diversos filósofos da Modernidade, especialmente nas obras do alemão Friedrich Hegel, Fukuyama defende a ideia de que o liberalismo político tinha dado conta de estabilizar as relações humanas e faria o mundo caminhar para um estado em que não haveria mais grandes e bruscas mudanças. A roda da história continuaria a girar, mas giraria de uma forma linear.
Em resposta ao livro de Fukuyama, o cientista político norte-americano Samuel Huntington publica “Choque de Civilizações”, lançado em 1993 após um debate logo em seguida à publicação do livro de Fukuyama. Huntington argumentava que, ao contrário do que Fukuyama defendia, o curso da história continuava, sim, imprevisível, e isso por dois motivos: culturas diferentes e religiões diferentes que necessariamente continuavam a existir ao mesmo tempo no mundo, apesar do fim da Guerra Fria.
O debate permanece até que há 20 anos, em 11 de setembro de 2001, o mundo assistiu boquiaberto o ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center em Nova York. Era o “clash of civilizations” que Huntington, ex-professor de Fukuyama, havia previsto em seu livro publicado na última década do século XX.
A história não só não parou, como parece seguir um ir e vir constante, mudando a forma como as guerras são travadas, como as pessoas se comunicam, como elas se relacionam e até mesmo como as doenças surgem e são combatidas. De 11 de setembro de 2001 até hoje, talvez possamos dizer, nenhum dia foi monótono.
Nesta semana em que o mundo olha para trás e tenta entender os últimos vinte anos que nos separam daquele fatídico 11 de setembro, nos damos conta de que a Guerra contra o Terror iniciada pelo presidente George W. Bush acabou de terminar e não terminou nada bem.
Durante vinte anos os Estados Unidos ocuparam o Afeganistão, primeiramente em busca do líder do grupo terrorista Al Qaeda,  que foi responsável pelo ataque em 2001, depois para formar soldados afegãos e garantir uma transição pacífica para uma nova política naquele país.
As cenas finais da retirada das tropas americanas do aeroporto de Cabul, transmitidas ao mundo ao vivo pela CNN por duas semanas até culminar na partida do último homem em 30 de agosto passado, mostram claramente que o esforço de guerra norte-americano não deu certo. O certo é que tanto Fukuyama quanto Huntington sabiam que iríamos viver uma nova era a partir da queda do Muro de Berlim, cada um de seu jeito acabou acertando no diagnóstico da era que se iniciava.
A perspicácia de Huntington, todavia, parece ter sido a mais visionária, pois são a religião e as diferentes culturas que convivem ao mesmo tempo no mundo contemporâneo que agora ditam os acordos de paz e as novas guerras, não só entre as nações, mas dentro de um mesmo país. Nenhuma tentativa de impor uma só religião ou uma só cultura a todas as pessoas de um país ou de todo mundo irá funcionar, justamente porque os seres humanos são diferentes e têm o direito de decidir livremente sobre a vida que querem viver.
É com enorme tristeza que vemos, ainda hoje, pessoas que tentam impor a sua religião ou a sua forma de viver às outras, defendendo ser esta ou aquela a forma correta de enxergar o mundo. É essa imposição que fomenta as guerras diárias em que estamos envolvidos na nossa vida cotidiana, guerras essas disfarçadas de disputas políticas tão comuns no Brasil de hoje. Se as pessoas deixassem as outras viverem de acordo com o sua própria concepção de vida boa não estaríamos nesse mar de ódio em que nos encontramos hoje.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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