Dias após o democrata Joe Biden ter alcançado o número mínimo de delegados para se tornar o próximo presidente dos Estados Unidos da América, uma amiga me perguntou se Biden é “de esquerda ou de direita”. A pergunta decorre do fato de que, há algum tempo, para uns, “ser de esquerda” é uma qualidade, enquanto, para outros, seria um defeito, e vice-versa. Contudo, antes de tentar responder se Biden está na esquerda ou na direita, é importante ter uma noção da origem de tais termos políticos.
Foi a partir da Revolução Francesa que se começou a falar significativamente, no âmbito político-ideológico, sobre esquerda versus direita. Na Assembleia Nacional Constituinte, em 1789, que marcou o fim do Regime Absolutista na França, no lado esquerdo tinham assento os representantes políticos de postura mais exaltadas, que queriam mudanças mais expressivas e estavam alinhados com a baixa burguesia e os trabalhadores (Jacobinos); no lado direito, ficavam os conservadores e que tinham boas relações com a nobreza e a alta burguesia (Girondinos).
Todavia, àquela época, as expressões “esquerda” ou “direita” não eram utilizadas para distinguir ideologias políticas, referiam-se à localização das cadeiras no Legislativo. Entretanto, a despeito da noção histórica, os termos “direita” e “esquerda” foram incorporando outras conceituações. Uma delas, pouco difundida, associa “direita” ao grupo que se encontra no poder e a “esquerda” à oposição.
Além do aspecto histórico da origem dos termos, há o fator ideológico que, ao longo dos anos, foi associando a esquerda ao progressismo, enquanto, a direita, ao conservadorismo. E, atualmente, de fato, a dita direita se comporta como conservadora nos costumes e se diz liberal na economia, supostamente para defender a ordem moral, a tradição e os valores religiosos, a liberdade econômica, a livre iniciativa e a propriedade privada.
É bem verdade que o foco da direita outro não é senão a priorização do lucro, favorecendo, assim, a manutenção do status quo, algo que contribui significativamente para o aprofundamento das desigualdades sociais. Na prática, o conservadorismo milita para que aqueles que já têm muito tenham ainda mais, e que os que têm pouco aprofundem-se ainda mais na pobreza. Esse é um dos motivos de os políticos de direita criticarem tanto as políticas de inclusão e de assistência social.
Por outro lado, a esquerda, sob um viés ideológico, é tradicionalmente vocacionada a ser progressista, podendo se apresentar como reformista ou como revolucionária, sempre trazendo consigo o descontentamento com a situação atual vigente. Por isso, no campo ideológico, a esquerda é mais sensível à garantia de direitos sociais (como saúde e educação públicas), defende que a exploração econômica e a propriedade privada tenham uma função social e respeitem o meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Além das divergências na condução econômica, no campo dos costumes, a direita defende maior censura às liberdades individuais, supostamente para preservar os valores familiares (desde que seja uma família chefiada por um homem heterossexual); já a esquerda prega maior liberdade, defendendo, ao menos em tese, igualdade de direitos civis para a população LGTB, para as mulheres e para segmentos da população que historicamente são desfavorecidos. Nos últimos tempos a direita também deixou escancarado um discurso anticiência.
Voltando à pergunta de minha amiga, Biden está, então, mais para progressista do que para conservador. Biden não será um salvador mundial, mas, certamente, sua eleição representa uma retomada civilizatória, a afirmação da ciência e a negação do populismo político e do extremismo (racismo, xenofobia, homofobia, machismo).
O governo e as propostas de Trump foram tão ruins que diversos membros e simpatizantes de seu partido, o Republicano, decidiram apostar em Biden: um gesto de grandeza democrática e de preocupação com os EUA. O governo Trump mostrou para os estadunidenses a importância de não eleger um presidente que não respeita a ciência nem tolera a diversidade.