Na abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU, Jair Bolsonaro fez aquilo que é sua maior especialidade: mentiu, distorceu dados, negou fatos e a ciência, atacou opositores, fez pouco caso da destruição da natureza brasileira, minimizou os impactos do coronavírus e fugiu de apresentar respostas às perguntas que ecoam na comunidade internacional.
Bolsonaro poderia ter aproveitado que o discurso exibido foi gravado e, assim, tecer uma narrativa minimamente convincente e condizente com a realidade. Para se defender de sua incompetência em governar, ele não precisaria ter mentido tão descaradamente.
O discurso dissociado da realidade e que aposta na burrice alheia, porém, não surpreende. É difícil acreditar que aquele que fez sua campanha pautada na mentira e na desinformação, após eleito, governe comprometido com a verdade. Bolsonaro não se mostra disposto a falar a verdade, senão, a buscar subterfúgios para contorná-la.
Apesar de negar os dados e tentar dissuadir que o Brasil foi um exemplo no combate à pandemia, Bolsonaro responsabilizou governadores e prefeitos pelo fracasso contra o coronavírus. Ao contrário do que o presidente disse, o Supremo Tribunal Federal não eximiu o governo federal da responsabilidade pela condução da crise de saúde. O que o STF determinou foi uma responsabilidade conjunta entre as esferas, permitindo que governos estaduais e municipais possam determinar regras de isolamento e quarentena, já que o governo federal vinha tomando medidas que em vez de combater o vírus, propiciaram que a taxa de contágio saísse de controle.
Bolsonaro ainda exagerou quando disse que o auxílio emergencial totalizaria mil dólares (cerca de R$ 5.600) por beneficiário, quando o valor para a maioria não ultrapassa R$ 4.200. Inclusive, relembre-se que, no início, Bolsonaro não só foi contrário ao auxílio como defendia um valor bem menor do que aquele aprovado pelo Congresso Nacional. Isso sem contar a demora na liberação do benefício.
Mesmo sendo internacionalmente conhecidos os dados que apontam o desmatamento e as queimadas dos biomas brasileiros, Bolsonaro, mais uma vez, negou. Disse que nossas florestas são úmidas e, por isso, segundo sua teoria, não seriam suscetíveis a queimadas. Também disse que os incêndios são naturais, inevitáveis, e teriam sido causados por índios e caboclos (expressão que exemplifica o racismo estrutural, dividindo as pessoas por cor de pele).
Sim, em condições específicas, as queimadas podem ocorrer espontaneamente. Entretanto, os focos de queimadas são bem maiores que nos anos anteriores, reflexo da campanha de desmonte ambiental, também conhecida como “deixar passar a boiada”. Segundo o IBGE, o Brasil perdeu 8,34% da vegetação natural nos últimos 18 anos, sendo que, da vegetação devastada, 55,07% eram da Amazônia e 31,17%, do Cerrado.
Os dados objetivos, todavia, parecem não ser compreensíveis pelo presidente, que prefere se alojar numa realidade paralela, como se ele fosse Alice e o Brasil, o País das Maravilhas. Esquizofrenia política: mania de perseguição (cristofobia, campanha de desinformação etc.), acreditam piamente em ideias mirabolantes que só existem em seus imaginários, não conseguem distinguir a fronteira entre realidade e ilusão.
O país que, entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000, graças à estabilização econômica e ao fortalecimento da democracia, vinha recuperando prestígio e credibilidade internacional, aos pouco, vem perdendo confiança. Se os discursos da ex-presidente Dilma Rousseff tornaram-se conhecidos pela oratória frágil e de difícil compreensão, o pronunciamento de Bolsonaro não tem qualidade superior. Pelo contrário, as falas dele apequenam o Brasil no contexto global.
Bolsonaro é, de fato, um mito… Mitomaníaco! Já que é cada vez mais indiscutível sua inclinação à mentira e à narrativa de teorias que só fazem sentido na sua cabeça e no imaginário de seus cultuadores.