Nesta semana, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) revogou diversas normas de proteção do meio ambiente brasileiro, incluindo regras específicas para proteção de manguezais e restingas. A manobra, orquestrada e liderada pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, cumpriu o que ele havia prometido na reunião ministerial de 22 de abril.
Naquela vergonhosa reunião, também conhecida como “reunião da balbúrdia”, Ricardo Salles disse expressamente e em tom de orgulho que considera a cobertura da mídia às mortes causadas pelo coronavírus como o momento de “tranquilidade” para “passar a boiada”. Quando afirmou que era o momento para “passar a boiada”, Salles não se referia aos apoiadores mais cegos da extrema direita, o que quis dizer foi que o governo deveria aproveitar o contexto caótico da pandemia para, de modo sub-reptício (isto é, às escuras, de modo clandestino, na surdina), abolir as regras de proteção ambiental.
O ministro do Meio Ambiente, contraditoriamente, mais que nunca, é o ministro anti-meio ambiente. Além disso, provavelmente, Salles é um dos maiores inimigos da preservação ambiental, graças a seu poder de decisão enquanto ministro de Estado responsável pela pasta. O poder institucional de que dispõe o ministério do Meio Ambiente, lamentavelmente, vem sendo usado para destruir o meio ambiente, em vez de cumprir os deveres legais, constitucionais e morais de proteger nossa biodiversidade.
Anteontem (30), na cúpula sobre biodiversidade da Organização das Nações Unidas, diversos líderes de países estrangeiros destacaram sua preocupação com a escalada de destruição da biodiversidade brasileira. Destacou-se, inclusive, que a política do atual governo brasileiro, complacente com a degradação da natureza, representa empecilho às relações comerciais do Brasil com outros países.
No primeiro debate presidencial de 2020 nos EUA, o problema ambiental brasileiro também não deixou de ser comentado. A pandemia e a onda de calor, a propósito, reforçam que um meio ambiente equilibrado não é mera futilidade ou bandeira da “esquerda”, trata-se de uma necessidade à vida humana com dignidade.
Entretanto, dando prosseguimento à sua sequência de discursos fantasiosos e negacionistas, o presidente Jair Bolsonaro voltou a afirmar, sem nenhuma prova ou indício, que organizações, em parceria com “algumas ONGs”, comandam “crimes ambientais”. Como se não bastasse o governo “achar que estamos de parabéns” ao ver nossas florestas queimando, Bolsonaro também quer queimar a imagem do Brasil com esses pronunciamentos falaciosos e nitidamente mentirosos.
O governo brasileiro tem consciência do grau de destruição de nossas florestas, porém, não está disposto a atuar pela preservação ambiental. Pelo contrário, a depender de Bolsonaro e Salles, nossas florestas serão incendiadas e derrubadas para dar lugar a pastos, ao garimpo ilegal e a todas as formas de exploração predatória de nossos recursos naturais.
Alguns psicopatas, em casos mais severos, sentem verdadeiro prazer em matar; Ricardo Salles parece sentir prazer em destruir florestas e todas as vidas que lá habitam. Não é coerente que aquele que conduz o ministério responsável pela proteção de nossa biodiversidade tenha a vocação e o interesse de destruí-la.
Segundo o IBGE, dos anos 2000 até 2018, o Brasil perdeu 8,34% da vegetação natural, sendo que, da vegetação devastada, 55,07% eram da Amazônia e 31,17%, do Cerrado. Em maior ou menor proporção, todos os biomas perderam espaço para a degradação. O levantamento ainda apontou que a maior parte da área destruída foi convertida em áreas de pastagem e agrícolas.
Pelo menos, tendo em vista o evidente risco de danos irrecuperáveis ao meio ambiente, agiu acertadamente a Justiça Federal ao suspender liminarmente a revogação de regras ambientais. Mas Salles continuará insistindo em “passar a boiada”, até transformar a Pátria Amada em Pátria queimada.