O ano de 2025 encerrou-se com um cenário econômico que contraria os prognosticadores mais pessimistas. A prévia da inflação oficial, o IPCA-15, registrou uma variação de apenas 0,25% no mês de dezembro, consolidando uma trajetória de desaceleração que se mantém resiliente mesmo diante de pressões externas, como as sobretaxas impostas pelo governo dos Estados Unidos às exportações brasileiras.
Com os principais indicadores convergindo para as metas e um horizonte de maior estabilidade, o país se prepara para um ano decisivo: 2026 é ano eleitoral. E, enquanto a corrida presidencial naturalmente capturará a maior parte dos holofotes, é imperativo que a sociedade redirecione parte crucial de sua atenção para outra esfera de poder, cujo pleito é igualmente definitivo, porém com uma diferença fundamental: as eleições para o Senado Federal, que ocorrem em turno único.
Infelizmente, como se viu em 2022, temas que deveriam estar no centro do debate nacional frequentemente são relegados a um segundo plano. Questões polêmicas e de alta carga emocional seguem sendo utilizadas como cortinas de fumaça, com o objetivo de amedrontar o eleitor e ofuscar a discussão sobre os dilemas nevrálgicos da sociedade brasileira: o combate à fome, a geração de emprego, o custo de vida e a eficiência dos serviços públicos.
Essa tática, que visa à polarização em detrimento da proposição, obscurece um fato constitucional básico e de enorme consequência prática: a palavra final sobre a grande maioria das transformações no país não está no Palácio do Planalto, mas sim no Congresso Nacional.
É o Poder Legislativo que detém a competência para criar leis, alterar a Constituição, aprovar o orçamento da União e fiscalizar os atos do Executivo. Nenhum presidente, sozinho, pode descriminalizar o aborto, legalizar drogas ou promover privatizações em larga escala. Todas essas matérias dependem de um demorado e complexo processo legislativo, conduzido por deputados e senadores.
A experiência recente comprova isso. Nos dois primeiros mandatos de Lula na Presidência, mesmo com ampla base de apoio, temas como o aborto não foram legalizados. De modo similar, ao longo do governo Bolsonaro, um amplo programa de privatizações não se materializou como prometido. O freio, em ambos os casos, veio da realidade institucional e do Congresso.
E é exatamente por isso que o pleito de 2026 transcende em importância a escolha do próximo presidente. No primeiro domingo de outubro, os brasileiros não apenas definirão os candidatos que irão ao segundo turno presidencial, mas elegerão, em votação única e sem possibilidade de segundo turno, dois terços do Senado Federal.
Esse é o ponto que merece máxima ênfase: a eleição para senador é majoritária e sem segundo turno. O candidato mais votado em cada estado, mesmo que com apenas um voto de vantagem, será declarado eleito para um mandato de oito anos. Trata-se de uma decisão irrevogável, com consequências que durarão mais que o próprio próximo mandato presidencial.
Com a economia mostrando sinais de estabilidade e as urnas se aproximando, reiterar certas obviedades ainda se mostra imprescindível. Foi-se esquecendo que a saúde da democracia depende do equilíbrio entre os Poderes, em que o Legislativo legisla, o Executivo administra e o Judiciário julga.
O voto para o Senado é, portanto, um dos atos de maior peso cívico. É preciso perquirir se o discurso de campanha reflete factibilidade ou se é mais uma ferramenta de terrorismo eleitoral, pois, no fim das contas, a palavra derradeira sobre os grandes temas nacionais estará, mais uma vez, nas mãos de deputados e senadores. Em 2026, ignorar essa realidade será um erro estratégico com impactos duradouros para o futuro de todos.