Nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro deu prosseguimento ao seu discurso antidemocrático e com ataques sem provas contra as urnas eletrônicas. Mas, desta vez, o caso foi ainda mais grave porque Bolsonaro convocou embaixadores de pelo menos 40 países para uma reunião, no Palácio da Alvorada. Sob o pretexto de debater o sistema eleitoral brasileiro, voltou a tentar colocar em dúvida a credibilidade de nossa democracia perante autoridades internacionais.
Ao assim agir, além de achincalhar da democracia brasileira para o mundo, Bolsonaro escancara sua falta de compromisso com a democracia e a despreocupação com a credibilidade do país. Tais fatos são aptos a caracterizar crimes de responsabilidade, definidos na Lei do Impeachment. No entanto, como o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, é aliado incondicional de Bolsonaro, é pouco provável que o Congresso tome alguma medida efetiva.
Os aliados de Bolsonaro e o próprio presidente têm ecoado que, se não houver voto impresso, não teremos eleições presidenciais em 2022. Fala que oscila entre a birra de uma criança que quer as coisas de seu modo e o crime de responsabilidade contra o regime democrático brasileiro, conquistado arduamente.
Além da repugnante ameaça à democracia e ao direito ao voto, é curioso que Bolsonaro acusa as urnas eletrônicas de serem fraudadas, mesmo tendo ele saído vencedor na última eleição presidencial e nas eleições em que disputou uma vaga no parlamento.
A propósito, não foi só Bolsonaro que diversas vezes foi eleito pelas urnas eletrônicas que ele trata como manipuláveis. Em 2018 as urnas eletrônicas deram a vitória não só a Bolsonaro, como a um grande número de parlamentares de seu então partido - o PSL (que alcançou o segundo maior número de cadeiras na Câmara), inclusive, aos filhos de Bolsonaro: Eduardo e Flávio Bolsonaro, respectivamente, na Câmara dos Deputados e no Senado.
Ocorre que, ao contrário do que tenta dissuadir o presidente, seu grupo tem sim orquestrado uma série de ataques infundados às urnas eletrônicas, dizendo que elas permitiriam fraudes. As urnas eletrônicas brasileiras, além das diversas camadas que asseguram a segurança e confiabilidade dos resultados, possuem mecanismos que permitem a auditoria dos votos. Tanto é verdade que o resultado das eleições de 2014 foi auditado a pedido do PSDB, não tendo sido constatada nenhuma fraude ou irregularidade.
O voto impresso, lado outro, representa um tremendo retrocesso. Além da falta de provas contra as urnas eletrônicas, o voto impresso pode servir como um mecanismo para que quem compra voto comprove que o eleitor de fato votou nele. Isso sem contar os inúmeros registros de fraudes e intensa morosidade quando a votação era impressa.
Muito provavelmente Bolsonaro teme que não seja reeleito, já que muitas pesquisas eleitorais têm apontado significativa liderança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por isso, desde logo, seguindo a linha de Trump, Bolsonaro já prepara o terreno para alegar fraudes caso venha a perder as eleições.
Inclusive, falando em Trump, cabe dizer que a nota divulgada pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, defendendo que o sistema eleitoral brasileiro é modelo para o mundo, foi aprovada pelo Departamento de Estado norte-americano em Washington. E a importância disso reside no fato de que a imensa maioria dos golpes de Estado na América Latina contou com o apoio dos EUA, apoio este que Bolsonaro não possui. Não porque os EUA sejam o bastião da bondade, senão talvez porque os americanos tenham visto isso recentemente isso em seu país com Donald Trump.
A urna eletrônica continua sendo confiável e um instrumento tipicamente brasileiro, a serviço de nossa democracia. Nossa democracia deve ser resguardada, e o resultado das urnas deve ser respeitado, independentemente do resultado.