Na última semana, causou muita perplexidade a notícia de que uma igreja evangélica, localizada na Serra, está sorteando uma espingarda calibre 12. Trata-se da igreja do Povo da Cruz, que está rifando, a R$ 100 cada bilhete, uma arma de fogo que teria sido doada por um membro da congregação. O fato causa perplexidade não apenas pelo flerte de algumas igrejas com o armamentismo, mas pela contrariedade àquilo que defendem as religiões cristãs, predominantes no Brasil.
Um dos pastores responsáveis pela rifa do armamento, questionado após a polêmica, sem hesitar, disse que está “muito orgulhoso disso” e completou dizendo que incentiva “a todo homem de bem que tenha uma arma para defesa da sua família”. Muito provavelmente, quem não ficaria nada orgulhoso disso é Jesus Cristo, até porque não me recordo de, na Bíblia oficial (livro sagrado para o cristianismo), haver passagens incentivando a beligerância ou a violência ao próximo.
Segundo narra A Bíblia, ao condenar a vingança, Jesus teria orientado a não resistir ao perverso, mas “se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mateus 5:39). E, adiante, complementou que se deve amar os inimigos (Mateus 5:44). Em outras passagens, também se entende que a doutrina Cristã desaconselha “fazer justiça com as próprias mãos”, orientando, senão, a instituição de autoridades a fim de que elas fossem agentes da justiça punindo o malfeitor (Romanos 13:1-6).
Com as devidas vênias, realizar sorteio de arma de fogo utilizando o nome de Deus é invocar o nome Dele em vão e justamente para promover o oposto da lição principal de Jesus Cristo: o amor ao próximo. A mensagem correta é “amai-vos uns aos outros” e não “armai-vos uns aos outros”.
Além de imoral, a rifa de armamento por igreja é também ilegal, sendo proibido no decreto nº 70.591 e reiterada a vedação na portaria nº 20.749 do Ministério da Economia. Trata-se de uma patente prova da inversão de valores que contamina alguns setores da sociedade atual, para os quais armas trazem a paz e o ódio significa liberdade.
Volta-se a dizer que armar a população civil, em vez de contribuir para a paz e para a segurança, contribui para a criminalidade e para a injustiça, já que, muitas vezes, a arma tida como defesa da família faz a própria família vítima de um disparo, ainda que acidental. Aliás, ainda aludindo aos ensinamentos bíblicos, vale lembrar que o próprio Jesus Cristo foi submetido a um julgamento contaminado, que impôs sua injusta condenação à crucificação (e com os aplausos de muitos que pediam que se soltasse Barrabás).
Não se deve tolerar o mal. Todavia, até o pior dos bandidos merece um julgamento segundo as leis, que, no caso do Brasil, não admitem a pena de morte.