A missão espacial Demo-2 do último sábado, 30, foi um sucesso, o primeiro lançamento tripulado da SpaceX, a empresa aeroespacial do visionário Elon Musk, levando dois astronautas para a Estação Espacial Internacional. Sendo uma missão civil, comercial e barata (custou uma fração dos gastos das antigas missões militares iniciadas na guerra fria), muitos já têm dito que isso demonstra que a iniciativa privada é muito mais eficiente que o investimento estatal. Só que não é bem assim.
Desde a missão Apollo, que levou o homem à Lua, até a atual, todas foram patrocinadas com dinheiro público e tiveram equipamentos produzidos por empresas privadas. O que mudou foi a forma de o Estado contratar. Antes, para provar que os EUA eram melhores que a comunista URSS, o orçamento público era ilimitado, contratando gigantes da indústria aeroespacial, como Grumman e Lockheed (algo semelhante aos contratos com empreiteiras).
A aposentadoria do Discovery, o último ônibus espacial, deixou claro que o governo americano não estava mais disposto a gastar fortunas do contribuinte com foguetes caríssimos e descartáveis. Em meio a este contexto surgiu Musk, prometendo levar a humanidade à Marte a custos baixos com foguetes reutilizáveis. Só que seu projeto foi recusado pelo capital privado, já que ninguém queria assumir os riscos de investir numa pequena “start-up espacial”.
Vendo a oportunidade, a Nasa, diga-se, o Estado, investiu na ideia e assumiu os riscos. Nessa nova parceria público-privada (palavras de Trump após o lançamento), o governo optou por uma cooperação operacional entre Nasa e SpaceX. Provou-se que a moderna simbiose público-privada deu certo. A SpaceX, com visão e administração exemplar, desafiou e venceu os dinossauros aeroespaciais, num mercado de oligopólio cujas barreiras para entrada eram consideradas instransponíveis.
Enquanto isso, no Brasil, o ministro da Economia diz que investir no pequeno empresário dá prejuízo. Ignora que 90% do empresariado nacional é de micro e pequeno, que empregam quase 60% dos trabalhadores formais. De quebra,
defende privatizar bancos públicos que, em última análise, são os que, além de altamente lucrativos ao erário, investem em inovação, notadamente em setores de risco, cujo capital privado não se aventura.
O governo nacional defende um modelo jurássico que, como visto acima, foi abandonado pelo país-símbolo do capitalismo mundial. Resta-nos a dúvida se a equipe econômica de nosso governo deve ser estudada pela Nasa ou por algum museu de história natural.