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Mercado de trabalho

Quiet quitting: o risco de se romantizar a desistência silenciosa

Caso você se encontre na situação de desistir de progredir no trabalho, primeiramente verifique se decorre de uma autêntica opção ou se existem sintomas de burnout, depressão ou crises de ansiedade

Publicado em 06 de Setembro de 2022 às 00:15

Públicado em 

06 set 2022 às 00:15
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

cassiomoro@gmail.com

O mundo corporativo adora uma novidade ou um novo nome para um fenômeno velho, que sempre existiu, especialmente se a nomenclatura for estrangeira. Nas últimas semanas analistas de mercado voltaram suas atenções ao “quiet quitting”, mal traduzido por aqui como “demissão silenciosa”.
Segundo Zaiad Khan (New York Times, 23/08/2022), o “quiet quitting” ocorre quando “você não está desistindo do seu emprego, mas está desistindo da ideia de ir além”, ou seja, o trabalho é péssimo, você não tem qualquer satisfação, valorização ou perspectivas naquilo que faz, mas não se demite porque precisa daquela renda e não tem qualquer outra opção.
Nessa situação, você simplesmente faz o trivial, bate seu ponto às 9h, diz bom dia aos colegas, cumpre com as tarefas rotineiras, elogia a gravata do chefe, bate o ponto às 18h e vai cuidar de sua vida.
A melhor tradução para o termo seria “desistência silenciosa”. Não pode ser “demissão” porque esse é um termo técnico legal que indica o rompimento do contrato por iniciativa espontânea do trabalhador. No “quiet quitting”,  o empregado não se demite, simplesmente desiste de progredir, de se matar de trabalhar para crescer na empresa, para galgar posições melhores no mundo corporativo.
O que há de novo aqui?
Em países como o Brasil, de farta mão de obra, mas poucas oportunidades, a imensa maioria dos trabalhadores tem uma ocupação na qual sequer teve opção de escolha. Iniciou a vida profissional na primeira vaga que apareceu e, sem qualquer melhora na qualificação, alterna entre períodos com emprego de subsistência e desemprego. E provavelmente vai fazer isso até morrer ou se tornar inválido, pois com os áridos requisitos da última reforma da previdência, dificilmente se aposentará por tempo de contribuição.
Mesmo trabalhadores mais qualificados não raro são contratados por empregadores que não oferecem nenhuma perspectiva de crescimento. Pequenas empresas e escritórios familiares dirigidos pelos próprios donos dificilmente farão de um trabalhador um sócio. Isso sem falar que pequenos negócios, ainda que sejam bem-intencionados e busquem cuidar do seu quadro de obreiros, são mais frágeis às oscilações econômicas e têm mais dificuldades com o custo da mão de obra e aplicação da complexa CLT, o que deixa o contrato de trabalho ainda menos atrativo.

NO SERVIÇO PÚBLICO

O serviço público é outro terreno fértil à desistência silenciosa. Em busca de estabilidade financeira, o cidadão estuda por anos para aprovação num rigorosíssimo concurso público, muitas vezes em uma área que nem sequer tem relação com sua formação acadêmica (imagine um engenheiro químico aprovado no concurso da Polícia Rodoviária Federal).
Além do desperdício de um talento naquela área de estudos, com o tempo o engenheiro servidor vai perdendo interesse na função, descobre que não existe um consistente e incentivador plano de carreira, os reajustes não acompanham a inflação, até que, com o tempo, sem mesmo perceber, já desistiu silenciosamente de ser um servidor dedicado.

PAÍSES DESENVOLVIDOS

Mas não é só no sofrimento que reside a desistência silenciosa. Em países desenvolvidos, que oferecem bons empregos, facilidade na recolocação profissional e excelente seguridade, como as nações do norte da Europa, trabalhadores têm o costume de entregar o mínimo (em termos de horas trabalhadas).
Segundo um ranking criado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), os países onde menos se trabalha, em horas semanais, são Holanda (29,5 horas), Dinamarca (32,5 horas) e Noruega (33,6 horas). É claro que há uma compensação na pouca jornada com a qualificação, que torna esse pequeno período altamente produtivo.
O que se prima em tais países é a qualidade de vida. Com estrutura social forte, não é o número de horas trabalhadas que define o sucesso do profissional, assim como o tempo dedicado a si mesmo e à sua família não é visto como moeda de troca. Com a pandemia e a introdução massificada do “home office”, o mundo passou a perceber isso, até mesmo nas culturas workaholic como a dos Estados Unidos, inclusive no público mais jovem, que mais se dedica para ocupar seu lugar. Talvez para esses o quiet quitting seja uma novidade.
A desistência silenciosa também pode ser provisória, uma fase na vida do trabalhador. Muitos profissionais suspendem a dedicação quando tem algum plano pessoal mais importante, que pode variar de cursar uma pós-graduação a cuidar do filho bebê, passando por uma preparação para uma prova de Ironman. Natural que durante tal período o profissional cumpra o básico e, ao atingir seu fim, o diploma, o crescimento do filho ou a suada medalha de finisher, possa retomar sua profissão “full trhottle” (só para citar mais uma expressão estrangeira).
Jamais romantize a desistência. O importante é que, caso você se encontre nessa situação, primeiramente verifique se decorre de uma autêntica opção ou se existem sintomas de burnout, depressão ou crises de ansiedade. Em caso positivo, vá se tratar, peça ajuda, procure o INSS. Saiba que, se a empresa tiver que dispensar empregados, o seu nome estará no início da lista. Ainda, fique atento para fazer tudo o que foi contratado para fazer. Deixar de lado atividades contratadas pode acarretar numa justa causa, e aí já era.

Cássio Moro

E juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduacao e pos-graduacao da FDV. Neste espaco, busca fazer uma analise moderna, critica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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