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Política internacional

Netanyahu e a banalidade do mal: extermínio dos palestinos e da humanidade

A tragédia em Gaza expõe o risco da indiferença e atualiza o alerta de Hannah Arendt sobre a banalização do mal em nome da obediência e da fé cega

Publicado em 07 de Outubro de 2025 às 03:00

Públicado em 

07 out 2025 às 03:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Um sentimento de absoluta tristeza, impotência, vergonha, dor e compaixão se impõe a qualquer pessoa que ainda guarde um pouquinho que seja de sua humanidade, ao ver as imagens dos horrores do genocídio cometido por Israel contra o povo palestino. Manter-se indiferente ou apoiar qualquer movimento do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, contra Gaza, é o mesmo que apertar o botão que autoriza o lançamento de bombas que irão destruir milhares de vidas, independente de serem elas civis ou militares, adultos ou crianças.
As imagens, capilarizadas pelas redes sociais de forma sistemática e cada vez em maior profusão, nos permitem acompanhar, quase em tempo real, ao vivo e em cores, o modus operandi do, possivelmente, maior e mais cruel genocida que a humanidade já produziu.
É claro que não há como negar os horrores já relatados em muitos outros momentos da caminhada do homem na terra, mas, talvez, dessa vez, em razão das tecnologias que nos colocam dentro do conflito, e da ultra especialização das estratégias utilizadas, possamos ter uma dimensão mais real do requinte e da capacidade do homem de se bestializar, mostrando-se cruel, insensível, chegando ao limite do processo de animalização que transforma homens em bestas feras.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, participa da cerimônia de abertura do encontro empresarial Brasil-Israel, em Jerusalém.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu Crédito: Alan Santos/PR
Para além das imagens cruentas que nos invadem a retina, os números se impõem como estatística comprovatória dos crimes cometidos por Netanyahu e tolerados por todos aqueles que têm o poder impedi-lo e que não o fazem. Seja por compartilhamento da maldade, seja por interesses políticos, o certo é que líderes do mundo inteiro se encontram deitados em berço esplêndido, enquanto milhares de homens, mulheres, crianças e idosos, veem ser despedaçados seus corpos e seus sonhos, com as bombas que explodem ao seu lado dia e noite.
Enquanto assistimos, impassíveis, a morte de milhares de inocentes, que nada têm a ver com os interesses envolvidos na guerra, vamos nos tornando cada vez mais insensíveis à dor e ao sofrimento humano, cada dia mais distantes do que nos constitui como humanos.
O processo de banalização do mal, como nos alertou Hannah Arendt, vai naturalizando os absurdos cometidos por homens comuns. Custa-me crer quando assisto homens que até então considerava íntegros e probos, cristãos que se afirmavam seguidores do Cristo, com vidas aparentemente ilibadas, líderes religiosos respeitados, saindo em defesa explícita de Israel e de seu primeiro-ministro, sustentando suas posições na falácia de uma nação escolhida por Deus, o que se constitui uma hermenêutica frágil e inverídica.
A teoria da banalidade do mal, legado da filósofa alemã, na análise das atrocidades cometidas no nazismo por funcionários públicos exemplares, pais de família respeitados, nos permite entender como a falta de reflexão e de conhecimento, pode levar ao cometimento de barbaridades inimagináveis, simplesmente pela fidelidade irrefletida a normas e preceitos, muitas vezes religiosos, ditados por lideranças, estas, sim, perversas em sua essência.
Não basta a declaração de apoio a um povo, de reconhecimento do genocídio cometido por Israel contra Gaza para que o senso de dever cumprido possa servir de aplacamento da consciência e da responsabilidade de líderes mundiais. Ações mais estratégicas e vigorosas se impõem. Não há tempo para esperar mais quando pessoas estão morrendo aos milhares, abandonadas à própria sorte.
No dia 3 de outubro, o New England Journal of Medicine, um dos mais respeitados periódicos do mundo, apontou números que não podem ser questionados e que evidenciam não apenas o genocídio, mas, também, que o limite da maldade humana foi alcançado com Netanyahu.
Segundo o jornal, 94% dos hospitais de Gaza, foram destruídos total ou parcialmente; 11 mil pessoas com câncer ficaram sem acesso a qualquer tipo de tratamento após o único hospital especializado ter sido demolido; 1580 profissionais de saúde foram mortos; 48% das máquinas de hemodiálise foram destruídas; desde setembro de 2023, 20 mil crianças foram mortas dentre os 65 mil palestinos que tiveram o mesmo fim.
Não há limite para a maldade humana. Se não fizermos nada que impeça a continuidade dessa bestialidade, teremos que reconhecer não apenas nossa incompetência política, mas nossa capacidade de nos reconhecermos como humanos.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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