A denominada política das cores, utilizada para conscientizar as pessoas sobre a importância de se atentarem para as questões de saúde que merecem atenção e que são, muitas vezes, negligenciadas, já ocupa todo o calendário. Alguns meses do ano, inclusive, já comportam hoje mais do que uma única doença.
O “Outubro Rosa”, campanha que tem por objetivo alertar as mulheres para a gravidade do câncer de mama e a necessidade de realizar seus exames preventivos, com autoexame e mamografia, com vistas ao diagnóstico precoce da doença, tem sido objeto de inúmeras ações e estabelecimento de políticas que visam a dar visibilidade ao problema, conscientizando quanto à urgência de tomarem as medidas preventivas e de tratamento com a brevidade que o problema exige.
O certo é que a campanha, de inegável relevância, traz ao centro do debate uma questão que não pode ser ignorada. Em um país com enormes desigualdades como o nosso, mais uma vez o fosso se amplia, e o que poderia ser um alerta e uma política de grande valor acaba por se tornar motivo de aflição e ansiedade para muitas mulheres.
Enquanto algumas que possuem planos de saúde se beneficiam, lembrando a necessidade de realizar seus exames preventivos, garantindo que estarão assim seguras por mais algum tempo, outras se veem angustiadas, cientes das dificuldades que encontrarão para vencer as barreiras até que tenham acesso a uma consulta médica, a um exame de mamografia e, após o diagnóstico, ao agendamento seja de uma cirurgia, seja de uma quimio ou radioterapia.
O slogan “quem tem câncer tem pressa” muito bem se conforma a essa situação. Todos sabemos que o tempo de início de tratamento é condição determinante no prognóstico da doença, ou seja, ele é condição decisiva para o resultado do tratamento.
Um mês pode ser a diferença entre ter ou não ter uma metástase e comprometimento do que se denomina ganglio sentinela. Esperar três, quatro, cinco ou até seis meses para agendar uma consulta e depois mais seis meses para conseguir realizar uma mamografia e iniciar um tratamento é desumano e criminoso. É condenar uma mulher a morrer ou ter sua vida e sua história comprometidas irreversivelmente.
Políticas públicas dependem de dados para que possam ser planejadas e implementadas. Nesse caso, os dados já são conhecidos e o planejamento poderiam ser feito sem maiores dificuldades.
Considerando os protocolos médicos relacionados com esse problema, todos sabemos o número de mulheres em cada cidade, em faixa etária dependente de exame anual ou semestral, o que já indicaria o número de mamografias que deveria ser disponibilizado .
Não há justificativa razoável para que 27% das mulheres que se enquadram nos protocolos de exigência para realização das mamografias anuais nunca tenham feito esse exame.
Não é aceitável que somente 46,2 % desses mulheres o tenham feito pelo menos uma vez ao ano.
URGÊNCIA DA MAMOGRAFIA
O que devemos questionar é, se a mamografia é o exame mais adequado ao diagnóstico do câncer de mama, sendo recomendado pelas principais instituições que tratam do assunto, por que tantas mulheres ficam fora dessa cobertura, sofrendo as consequências de só descobrirem seus nódulos quando as possibilidades de cura e de tratamento mais simplificado já foram reduzidas?
A grande e reconhecida dificuldade para a realização das mamografias ainda é o acesso aos serviços de saúde. Somado ao medo de encontrar a doença e as experiências negativas da realização do exame, a demora no agendamento de consultas e exames ainda deve ser considerada um problema gravíssimo e de responsabilidade do gestor público.
Não há justificativa ética e juridicamente aceitável para que ainda tenhamos tantas mulheres sem acesso à informação e aos exames necessários à garantia de seu Direito à saúde e à vida.
Sensibilizar e conscientizar as mulheres com a campanha “Outubro Rosa” quanto à importância e urgência de manterem seus exames em dia e não oferecer a elas as condições básicas de acesso a esses serviços e tratamentos, no tempo que o problema exige, é de uma perversidade e de um descaso absolutos.
LEI GARANTE O DIREITO
A Lei nº 12.736, promulgada pela presidenta Dilma Rousseff em 2012, que garantiu o direito a todos com diagnóstico de câncer a terem seus tratamentos iniciados em um prazo máximo de 60 dias, não foi devidamente efetivada em nosso país.
Passados oito anos e já com normativas que reduzem esse tempo, tendo em vista ser ele insuficiente para garantir a saúde e a vida das pessoas, a legislação não foi devidamente concretizada, no caso do câncer de mama.
Não bastasse a inépcia do poder público em dar conta do problema, no caso do diagnóstico e tratamento precoce do câncer de mama, temos que conviver com a leniência do Estado ao não enfrentar, com a devida determinação, as causas que alimentam o problema do câncer e o fazem atingir patamares assustadores.
Os grande poluidores continuam a despejar volumes inaceitáveis de poluentes no ar. O pó preto com que cidades como Vitória tem que conviver é, reconhecidamente, causador de diversos tipos de cânceres, e nada é feito. Aceita-se tranquilamente que grandes empresas continuem lucrando à custa da vida e da saúde das pessoas.
Políticas direcionadas ao controle do uso de agrotóxicos, conhecidos causadores de diversos tipos de doenças, entre elas o câncer, continuam a morosamente serem conduzidas, enquanto de forma agressiva e maciça milhares de litros de agrotóxicos são despejados em nossas plantações, comprometendo nossos alimentos, nossos lençóis freáticos, nossas fontes de água, causando-nos doenças cada dia mais invasivas e hostis à nossa saúde.
No caso do câncer de mama, como também de outros tipos de cânceres, todos nós sabemos que, quanto mais precoce o diagnóstico e o início do tratamento, maior a chance de cura.
Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), em mais de 50 % dos casos de câncer, o tratamento demora mais de 60 dias para ser iniciado, isso sem considerar que, em cerca de 7% dos casos, não temos informações desse prazo.
Quem deveria ser responsabilizado por essa violação à saúde e à vida das mulheres no caso do câncer de mama?
Campanhas de conscientização são necessárias e relevantes. É necessário reconhecer que precisamos moderar a quantidade de alimentos que ingerimos, pois a gordura é fator agravante para o surgimento dessa doença, mas é preciso lembrar, também, que o Estado precisa de políticas públicas que controlem a produção de alimentos processados, do teor de sódio e de gordura saturada, bem como no controle da presença de substâncias tóxicas nos alimentos em geral.
Entre outras medidas, como as já citadas, há que se investir em políticas que enfrentem a medicalização da vida, também responsável pelo problema e tão importante quanto garantir que todas as mulheres que se enquadram nos protocolos e nas indicações de realização de mamografia tenham seu acesso facilitado e otimizado para que não sejam condenadas pela incapacidade do Estado a terem suas chances reduzidas e sua saúde e sua vida preservadas.
E viva o SUS, patrimônio a ser defendido para que tenhamos o direito constitucional à saúde universal, integral e igualitário garantido.