A pandemia da Covid-19, maior crise sanitária de todos os tempos, ainda será objeto de nossas tristes e trágicas lembranças por longo tempo.
Milhares de pessoas em todo o mundo tiveram suas vidas afetadas de forma radical, com a morte, com a perda de pessoas queridas, com a perda de bens materiais ou emprego e com a dignidade. Poucos foram os que passaram ilesos por essa experiência nefasta.
Em uma avaliação rigorosa e minuciosa dos afetados, encontraremos, certamente, uma correlação direta entre vulnerabilidades múltiplas e grau de comprometimento da vida e da qualidade de vida, em razão da pandemia.
Os mais pobres e negros morreram mais e foram mais afetados, em todos os sentidos.
Entretanto, para além das vulnerabilidades ligadas à economicidade e à raça, nos deparamos com um complicador de difícil controle relacionado a duas questões que tornaram essa crise ainda mais complexa e com resultados ainda mais gravosos.
O posicionamento do Conselho Federal de Medicina validando comportamentos médicos reconhecidamente anticientíficos e serviços de saúde privados se aproveitando dessa validação para auferir ganhos ainda mais significativos, colocando em risco a vida e a saúde das pessoas, sem que houvesse qualquer medida imediata que interrompesse esse processo, permitiram que pessoas perdessem suas chances de sobrevivência.
Médicos, grandes protagonistas de muitas dessas violações, com prescrições de medicamentos não validados cientificamente, serviram de mensageiros de uma ideologia política que mascarou a verdade e se sustentou em fake news, levando milhares a não se vacinarem e a utilizarem medicamentos sem qualquer validade científica, que provocaram complicações que aos poucos vão se manifestando e comprometendo a saúde daqueles que foram convencidos pelo argumento de autoridade médica a consumi-los.
Hoje, passados os momentos mais graves da crise, e já recuperada a racionalidade de muitos, é hora de buscar as devidas reparações para as violações cometidas em nome da política e sustentadas em um projeto de poder econômico sem precedentes na história recente brasileira.
Necessário considerar que nem toda a classe médica se envolveu nesse tipo de conduta eticamente reprovável e juridicamente passível de enquadramento, em alguns casos, criminal. Muitos se mantiveram fiéis aos princípios fundamentais da ética médica e do respeito absoluto aos ditames da ciência.
A Prevent Senior, uma das empresas do setor saúde que mais protagonizou casos de violações dessa natureza, terá que responder agora, na Justiça, por suas condutas que violaram o direito à vida e à saúde de seus clientes e o direito à autonomia decisória de alguns médicos que, sob o risco de perderem seus empregos, foram constrangidos a prescreverem medicamentos reconhecidamente não eficazes.
Não é hora de acordos ou negociações espúrias no sentido de preservar instituições e pessoas envolvidas nas violações. A força do mercado da saúde e de corporações profissionais não pode superar a força dos órgãos do sistema de justiça em busca da aplicação de uma justiça justa.
A sociedade civil organizada e as instituições representativas precisam se unir e se movimentar no sentido de desmascarar possíveis acordos que possam estar sendo articulados e que, tantas vezes, são impostos aos mais vulneráveis por meio de pactos de ameaças veladas de vulnerabilizações ainda mais danosas à ética, à justiça e à dignidade humana.
Que seja feita a justiça para que nunca mais os violadores se sintam autorizados a cometerem delitos.