Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Religião

Reforma Protestante: igreja e amor na contemporaneidade

Movimento revolucionário encabeçado por Martinho Lutero completou 504 anos em 31 de outubro. Comemoração encontrou a igreja reformada brasileira em crise

Publicado em 02 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

02 nov 2021 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Comemoramos, no último dia 31 de outubro, os 504 anos da Reforma Protestante, movimento revolucionário encabeçado pelo monge alemão Martinho Lutero, que subverteu a ordem mundial, provocando profundas e relevantes mudanças na estrutura do pensamento e da prática religiosa, política, cultural, artística e científica da humanidade.
Lutero teve a sabedoria e o discernimento de entender o momento político e religioso de sua época e, à luz da escritura, perceber os desvios éticos do clero, assumindo, com coragem, determinação e estratégia, sua vocação sacerdotal. A partir do momento em que tem seus olhos espirituais e sua capacidade intelectiva livres do véu da ignorância, ele materializa sua insatisfação com a degradação religiosa que imperava em sua época e, sob a forma de denúncia baseada em 95 teses irrefutáveis, claras como a luz do dia, ele expõe as entranhas do poder religioso.
Denuncia a corrupção e a construção doutrinária baseada nos interesses da igreja e não esteadas na Bíblia. A doutrina do purgatório, que se sustentava na falsa ideia de que era possível absolver pecados com o pagamento de indulgências, antibíblica, que tinha como objetivo principal arrecadar fundos para a construção da Basílica de São Pedro, é a mais acintosa dessas manipulações hermenêuticas.
O comércio da fé, associado a uma imoralidade capilarizada no interior da igreja e da sociedade, ao tempo em que a fome, as pestes e a miséria se encontravam disseminadas, formaram o substrato para que a indignação do monge agostiniano chegasse ao seu limite e explodisse como movimento de denúncia e de posicionamento, bíblico e político, a favor da verdade.
Lutero, e tantos outros reformadores e reformadoras, lutaram contra as heresias e a manipulação de uma sociedade altamente vulnerável, fragilizada pela ignorância e pelo terror provocado pelo medo do inferno e das perversidades empreendidas por aqueles que deveriam ser os defensores das doutrinas bíblicas de amor ao próximo, de igualdade e de dignidade.
Hoje, o corajoso e perturbador movimento que se insurgiu contra os desmandos da poderosa Igreja Católica, denunciando suas então práticas antibíblicas, de exploração da fé, de monopólio do conhecimento e da vontade divina, de desvios morais e de participação do clero na acumulação de bens materiais e desvios de conduta em prol de uma elite religiosa, encontra-se obstaculizado, deixando seus autointitulados seguidores de movimentar-se como deveriam os integrantes de uma igreja reformada, que se deseja sempre reformando.
A associação, hoje, às mesmas práticas que então denunciavam, coloca os sucessores da Reforma Protestante na contramão das diretrizes doutrinárias, bíblicas, que os levaram a expandir-se de forma vertiginosa, gozando do respeito e da consideração de muitos ao longo de mais de meio século de existência.
Registre-se que reconhecer a herança de modernidade e avanços frutos da Reforma Protestante, não pode, entretanto, nos fazer esquecer de suas contradições e descaminhos, sempre existentes, considerando nosso caráter humano, parcial e potencialmente autocentrado e autorreferente. No momento adequado precisam ser objeto de nossas reflexões.
Martinho Lutero
Lutero teve a sabedoria e o discernimento de entender o momento político e religioso de sua época Crédito: Reprodução
A comemoração, em 31 de outubro de 2021, desse primoroso e arrebatador movimento que deveria nos unir em torno das mesmas pautas e diretrizes doutrinárias que incendiaram o coração dos reformadores e das reformadoras no século XVI, encontrou a igreja reformada brasileira dividida, abatida, cabisbaixa, nostálgica, envolvida em disputas de poder e agendas muito pouco comprometidas com a ética cristã baseada no amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
igreja protestante reformada brasileira encontra-se em crise. Ela está dividida entre o desejo de poder, alimentado por algumas lideranças inescrupulosas e voltadas aos seus próprios interesses, e uma doutrina sólida, baseada em uma hermenêutica simples que tem levado muitos ao exercício de uma fé genuína e pura, desejosos de agradar a Deus e fazer a sua vontade, mas tímidos de coragem e conhecimento para enfrentarem os discursos de ódio e manipulação da inteligência e da vontade dos cristãos.
Em que local ou instituição do sistema político, religioso ou de justiça deverão os cristãos reformados brasileiros afixar suas 95 teses com as denúncias de corrupção da igreja e do Estado Brasileiro, de forma a manter-se fiel às escrituras e ao ideal de ser uma Igreja Reformada sempre reformando?
A associação a práticas políticas que fomentam a violência, a discriminação, o autoritarismo, as formas modernas de escravidão, de genocídio estatal, de retrocesso científico, de exclusões, de perseguições internas e externas, de violações à Ética cristã e aos Direitos Humanos Fundamentais, com suas contradições entre ortodoxia e ortopraxia, com sua opção preferencial pelos econômica e socialmente privilegiados, são incompatíveis com o ideal reformador que provocou a maior ruptura com o atraso e com as injustiças que o mundo já assistiu.
O legado da Reforma Protestante, que nos permitiu ingressar na idade das luzes, na modernidade, no avanço dos ideais de dignidade, liberdade de consciência e política, fraternidade, igualdade entre homens e mulheres, clérigos e leigos, que construiu e concretizou os ideais de uma educação pública para todos e a educação das mulheres como um direito de cidadania, precisam servir de um chamado histórico aos remanescentes dos reformadores e dos sonhos e projetos alimentados no coração e na mente de Deus.
Por uma nova Reforma, baseada na volta ao primeiro amor. Uma reforma que contemple o ensinamento bíblico baseado no ideal revolucionário do cristianismo autêntico, de que em Cristo podemos ser um só coração e que, portanto, se um de nós passa fome, sede e é injustiçado, precisamos ter coragem de nos indispormos contra tudo e todos que transformam o homem em menos do que a imagem e semelhança de Deus.
Reformados sempre reformando.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Rodox, com Rodolfo Abrantes, e Dead Fish promovem encontro com muito rock no ES
Rodox, com Rodolfo Abrantes, e Dead Fish promovem encontro com muito rock no ES
Imagem de destaque
Tarot do dia: previsão para os 12 signos em 21/04/2026
Imagem de destaque
Cessar-fogo entre EUA e Irã se aproxima do fim em meio a incerteza sobre negociações

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados