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Chuva

Tragédia no ES: até quando seremos surpreendidos pelas mudanças climáticas?

O que estarão dizendo hoje os negacionistas do clima diante da tragédia que se abateu sobre algumas cidades da Região Sudeste nos últimos dias?

Publicado em 26 de Março de 2024 às 01:30

Públicado em 

26 mar 2024 às 01:30
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Até quando seremos “surpreendidos” pelas tragédias anuais, sistemáticas e anunciadas que matam e deixam milhares de desabrigados espalhados pelo país?
Segundo dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres do Ministério de Desenvolvimento Regional, entre os anos 2013 e 2022, no Brasil, 1899 pessoas morreram em decorrência de tragédias provocadas pela chuva. Se somarmos os mortos em 2023 e 2024 esse número supera duas mil pessoas.
São vidas perdidas por falta de políticas públicas efetivas ou são fenômenos naturais com os quais teremos que conviver para sempre? A pergunta não é mero exercício retórico. É uma tentativa de enfrentar um problema que assume condição cada vez mais crítica e com risco social cada vez mais elevado.
O que estarão dizendo hoje os negacionistas do clima diante da tragédia que se abateu sobre algumas cidades da Região Sudeste nos últimos dias? Petrópolis, Teresópolis, Mimoso do Sul, Bom Jesus do Norte, Apiacá, dentre tantas outras que se encontram em situação de emergência, e que já sofreram ou ainda irão sofrer as consequências dos eventos climáticos extremos e da intervenção do homem na natureza de forma predatória.
Culparão aqueles que, por falta total de opção, construíram suas casas em locais de risco?
Para além das divergências relativas ao aquecimento global e às alterações do clima, três perguntas relativas ao enfrentamento dos riscos são essenciais nesse momento: 1- intervenção estatal, por meio de políticas públicas de natureza ambiental, pode mitigar o processo de aquecimento global e promover ações de adaptação aos efeitos adversos climáticos com vistas ao enfrentamento dos riscos e incertezas? 2- Em não sendo possível reverter o processo e apenas atenuar seus efeitos, que medidas podem ser adotadas no sentido de prever desastres e de criar estruturas capazes de reduzir suas consequências? 3- O que nós, enquanto sociedade, podemos fazer em situações de intensa crise ambiental, como esta que vivenciamos e, infelizmente, vivenciaremos no futuro?
O fato é que o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu, na última sexta-feira, alerta de “grande perigo” para os estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo. A cor vermelha, que caracteriza as situações meteorológicas de grande perigo, indica que há previsão de fenômenos de intensidade excepcional com riscos inclusive à vida. Entretanto, segundo pronunciamento do governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, mesmo com o alerta não foi possível prever o volume de chuvas concentrado em poucas horas que arrasaram cidades, em especial Mimoso do Sul, que se encontra completamente devastada.
Chuva deixa rastro de destruição em Mimoso do Sul
Chuva deixa rastro de destruição em Mimoso do Sul Crédito: Fernando Madeira
As consequências são incalculáveis. Não há nada que se possa fazer para reverter a situação ao status quo anterior.  Em Mimoso, por exemplo, casas vieram abaixo, paredes ruíram pela força incontrolável das águas, não há remédios, as unidades de saúde foram destruídas. As farmácias e os supermercados não possuem mais mercadorias. Ainda que os sobreviventes tenham sua saúde física preservada, estarão todos impactados, afetados em sua saúde mental pela força do medo, da dor e das perdas.
Soluções imediatas vêm sendo adotadas e é possível ver o empenho do governo do Estado no enfrentamento da crise. Tentativas válidas e necessárias para minimizar a dor e o sofrimento e para prover as necessidades básicas mais elementares e essenciais nesse momento.
Pessoas e instituições estão se mobilizando em ações de ajuda humanitária e esses movimentos fortalecem e minimizam a dor, mas há ações e medidas complexas a serem tomadas, e elas não dependem somente do governo do Estado e suas instituições. A crise requer uma governança nacional, na qual as forças nacionais se unam e tomem decisões compartilhadas por meio de responsabilidades partilhadas, convergentes e sincronizadas.
O governo federal terá que agir unindo-se às forças estaduais, municipais e ao setor privado, no qual igrejas em suas diversas matizes teológicas, escolas e instituições não governamentais assumam sua condição de corresponsáveis por um projeto de nação que seja viável para todos .
O SUS, uma potência nacional, capilarizado por todo o país, deverá integrar um projeto de recuperação da saúde física e mental de todos os afetados.
Diante da tragédia, muitos têm se mobilizado no sentido de ajudar os que sofrem, que estão desabrigados ou que perderam seus familiares e seus bens. Há, entre os negacionistas climáticos, muitos de coração bom e de alma generosa, que nesses momentos de crise se reúnem em torno da causa para ajudar, o que é sempre muito bem vindo.
Generosidade e solidariedade são fundamentais nesses momentos. Juntar roupas que sobram e abarrotam nossos guarda roupas, material de limpeza e higiene, cestas básicas, entre outros, tem papel relevante e, nesse momento, podem significar vida e dignidade para os que se veem desprovidos de tudo.
A situação é dramática. Toda a ajuda é bem vinda. Cidades como Mimoso e outras estão vivendo um estado de calamidade pública e a dor é impossível de ser expressa em palavras.
A hora é de agir, seja no campo individual, seja no campo das ações coletivas. Pensar que, para além da generosidade e da bondade que nos constitui como pessoas humanas de bem, há um dever de cidadania, expresso na Constituição Federal que se manifesta como Princípio da Solidariedade Social, ao qual todos estamos vinculados enquanto membros de uma mesma nação orientada à igualdade e liberdade de todos. Não há liberdade fora da dignidade e, hoje, ela está comprometida para os moradores das cidades atingidas.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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