Atualmente, crescem as evidências com respeito aos impactos de novas variantes sobre as vacinas existentes. Um estudo do Reino Unido demonstrou que a variante Delta diminui a efetividade da vacina, principalmente para as pessoas que receberam apenas uma dose.
Dentre as variantes de preocupação que foram identificadas desde o início da pandemia, o conjunto de mutações presentes na variante Delta aponta que, gradualmente, as vacinas podem perder a atividade de anticorpos neutralizantes para as novas variantes, aumentando a dependência pela segunda dose. No Reino Unido, a efetividade contra a infecção decresceu a aproximadamente 30% para pessoas com apenas uma dose, mantendo uma alta eficácia em mais de 80% com as duas doses, para as vacinas da Pfizer e da AstraZeneca.
Portanto, hoje a segunda dose é ainda mais essencial do que anteriormente pensado. Sendo assim, prolongar o intervalo mais do que o usado no estudo randomizado e aprovado pela fabricante de cada vacina pode afetar sua efetividade, deixando mais suscetíveis as pessoas vacinadas com apenas uma dose.
Além disso, quanto menos gente vacinada com a segunda dose, maior será a probabilidade de manutenção de infecção em alta transmissibilidade e, consequentemente, a chance de surgirem variantes que poderão escapar das vacinas. Alguns países, como Portugal e Reino Unido, já reduziram o intervalo da vacina da AstraZeneca para 8 semanas. A maior parte dos países mais avançados na campanha está administrando a vacina da Pfizer, conforme recomendação do fabricante, de 21 dias. É, portanto, fundamental que o Programa Nacional de Imunização reveja esses intervalos, principalmente diante dessas novas evidências de necessidade de segunda dose.
Outra questão que vem sendo levantada à medida que países avançam na vacinação é a intercambialidade entre as vacinas, ou seja: receber a primeira dose de uma fabricante e a segunda dose de outra marca. Países como o Canadá já estão admitindo como programa de saúde pública. Por questões de segurança, vários países europeus já recomendam que algumas ou todas as pessoas que receberam a primeira dose da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, e pela AstraZeneca, recebam outra vacina para sua segunda dose.
Os pesquisadores esperam que tais regimes de vacinação mistos e combinados desencadeiem respostas imunológicas mais fortes e robustas do que duas doses de uma única vacina, ao mesmo tempo que simplificam os esforços de imunização para países que enfrentam estoques flutuantes de várias vacinas.
Estudos estão sendo publicados sobre a eficácia de regimes homogêneos versus regimes heterogêneos. Um estudo realizado na Alemanha demonstrou que reforço de vetor-mRNA heterólogo induz uma forte resposta do sistema imunológico. Outro estudo realizado na Espanha com 676 indivíduos mostrou que uma segunda dose da Pfizer em pessoas vacinadas com a AstraZeneca induziu uma resposta imune robusta, com um perfil de resposta imunológica eficaz e segura. Nesse momento, uma ação efetiva seria a oferta da segunda dose da Pfizer para gestantes que tomaram AstraZeneca ou para pessoas que tiveram uma reação adversa mais grave.
Outro ponto importante foi a aprovação pela Anvisa da vacina da Pfizer para adolescentes de 12 anos ou mais. Frente ao aumento do número de casos e óbitos que estão sendo observados no Brasil desde a segunda onda da Covid-19 e visando a proteção desse grupo para um retorno às aulas presenciais de forma mais segura, esses adolescentes deveriam ser incluídos assim que os maiores de 18 anos tenham sido vacinados. Ou seja: acelerar a administração das doses para chegar mais rápido a todos os grupos vulneráveis.
Diminuir o intervalo para a administração da segunda dose, possibilitar a intercambialidade entre as doses de vacinas diferentes e incluir os adolescentes na campanha de vacinação são frutos das recentes pesquisas científicas e serão ações que poderão tornar mais efetiva a nossa campanha de vacinação e proteger as pessoas para conseguirmos, por fim, vencer essa pandemia.