Ontem me fizeram essa pergunta e eu refleti bastante sobre a resposta. A pandemia caminha para o controle? Bem, vejamos; ainda estamos com altos números de casos e ainda há muitas vidas sendo perdidas para a Covid-19. Estes não são bons sinais. No entanto, há uma diminuição nos números que pode nos levar a uma falsa sensação de controle.
A redução do número de casos e mortes pode significar que a pandemia está controlada e que a luz no fim do túnel está mais próxima? As respostas a essas perguntas nem sempre são as que gostaríamos. A queda na quantidade de casos e de óbitos, que parece acontecer em vários Estados, indica um arrefecimento da pandemia e está associada ao avanço da vacinação. Tem sido assim em vários países e em estudos nos municípios de Serrana e Botucatu, aqui no Brasil.
No Espírito Santo, com o avanço da vacinação, mais de 50 municípios não registraram nenhuma morte em sete dias. Isso merece comemoração com cautela. Até o momento, as variantes que estavam circulando não tinham impactos significativos em pessoas vacinadas. Esse fato sofreu uma mudança com a circulação da variante Delta em vários países, como EUA, Reino Unido e Israel. Principalmente em pessoas com apenas uma dose da vacina.
Como ainda temos no Brasil um percentual pequeno de pessoas vacinadas com o esquema completo de duas doses e um percentual muito maior de pessoas sem nenhuma dose, nós precisamos de atenção redobrada. A situação da pandemia está longe do seu controle. Enquanto mantermos pessoas circulando e transmitindo a doença, nós estamos sujeitos ao aparecimento de variantes que podem conseguir escapar do nosso sistema imunológico.
Quando falamos escapar, queremos dizer que as mudanças feitas por aquela variante do vírus são tão grandes que o nosso sistema de defesa não reconhece mais como o mesmo vírus. É como se ele se disfarçasse e conseguisse, com isso, causar doença naquelas pessoas que já haviam se infectado com o Sars-Cov-2 ou enganar o nosso sistema de defesa que foi constituído pelo vírus, ou parte dele, contido na vacina. Isso significa que o vírus está fazendo o que é melhor para ele, conseguindo uma forma de se manter infectando as pessoas. É a forma do vírus “sobreviver”.
Nessa disputa entre nós, os humanos, e o vírus, ele parece se adaptar mais rápido e encontrar formas de nos infectar, com mais assertividade do que nós estamos conseguindo controlá-lo. Até agora, temos reagido ao vírus e não agido, de forma proativa, para diminuir significativamente sua disseminação. Não temos conseguido nos antecipar à transmissão do vírus.
A chegada da variante Delta em transmissão comunitária, de pessoas que não vieram de viagem ao exterior e não entraram em contato com alguém que veio, era apenas uma questão de tempo face às poucas medidas restritivas que temos. E ela chegou. Antes de termos minimamente 70% das pessoas vacinadas com duas doses, toda atividade que não inclua as recomendações de diminuição de circulação com as medidas de biossegurança manterão o descontrole da pandemia.
A pior ação em uma pandemia descontrolada é achar que ela está controlada e usar da estratégia de liberar tudo, sem protocolos rígidos de controle de transmissão e sem um protocolo de testagem efetiva dos casos. Assim, as pessoas que não estão vacinadas e as parcialmente vacinadas, aquelas que só receberam uma dose do esquema de duas doses, podem contribuir para o surgimento ou o espalhamento de novas variantes que escapem às vacinas.
Neste momento é crucial uma máxima atenção! Algumas vezes, a luz no fim do túnel pode ser um trem que vem em nossa direção. Precisamos atuar com a cautela que o momento exige. Continue com todos os cuidados: a pandemia ainda não acabou!